A passagem de Carlo Ancelotti à frente da Seleção Brasileira completa 420 dias com um balanço que ainda não empolga analistas, torcedores e parte da comunidade esportiva. Quando o técnico italiano assumiu o cargo, a expectativa era de uma virada de página imediata, mas o rendimento da equipe permaneceu distante do patamar considerado ideal para um elenco cinco vezes campeão mundial.
O grupo convocado por Ancelotti segue classificado, em média, como intermediário por observadores do futebol. O atacante apontado como principal estrela do plantel vive fase final de carreira; suas condições físicas e táticas já não possibilitam decidir partidas de alta exigência, segundo avaliações médicas e táticas divulgadas recentemente.
“Muitos imaginaram que, com a chegada de Ancelotti, tudo mudaria da noite para o dia. O tempo passou e as convicções se amoleceram”, afirmam analistas consultados.
Mesmo assim, a pressão não se limita ao banco de reservas. As fragilidades revelam problemas estruturais que atravessam diferentes diretorias da Confederação Brasileira de Futebol. De Ricardo Teixeira a Samir Xaud, passando por Del Nero, Marin, Caboclo e Ednaldo Rodrigues, o comando do futebol nacional sofre sucessivas denúncias de ingerência política e descaso administrativo.
Especialistas alertam que a entidade nunca esteve tão suscetível a influências externas. Há quem aponte interlocutores comprometidos com interesses alheios ao desenvolvimento esportivo, tendência que se reflete na dificuldade para executar projetos de base, modernizar centros de treinamento e criar uma política sólida de aproveitamento de jovens talentos.
“A CBF inaugura pontes que não levam a lugar nenhum”, critica um dirigente que pediu anonimato, referindo-se a obras e programas cuja eficácia ainda não foi comprovada.
Samir Xaud, atual presidente, aposta em alianças internas e externas para sustentar sua gestão. A tática, porém, não encontra respaldo pleno entre os presidentes de federações estaduais, tradicionalmente fiéis quando recebem contrapartidas financeiras ou logísticas. Sem resultados em campo, a blindagem política tende a perder força, aumentando a cobrança por mudanças concretas.
Diante desse cenário, Ancelotti já anunciou o início de um novo ciclo, blindado por mais quatro anos de contrato. A partir de agora, ele promete ajustes táticos, renovação gradual do elenco e integração maior com categorias de base. O treinador reconhece, entretanto, que a margem para erros diminui consideravelmente, pois o próximo Mundial aparece no horizonte e a torcida exige respostas rápidas.
O futuro da Seleção — e, por extensão, da própria CBF — dependerá da capacidade de a entidade alinhar gestão profissional, transparência e planejamento de longo prazo. Se o italiano conseguir implementar suas ideias enquanto a diretoria corrige falhas históricas, a equipe pode readquirir o protagonismo. Caso contrário, os 420 dias iniciais poderão ser apenas o prelúdio de um ciclo com ainda mais questionamentos.
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