O debate sobre a presença do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em Washington, nos Estados Unidos, ganhou novos capítulos HOJE. O deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP) voltou a criticar a iniciativa da comitiva de parlamentares de oposição que esteve no Congresso norte-americano entre segunda (6) e terça-feira (7). Para o congressista paulista, a passagem do grupo pelo Capitólio não teve como foco a defesa de interesses nacionais.
“Não foi defender o Brasil, foi defender seus interesses eleitorais”, escreveu Boulos na rede social X.
Segundo ele, o objetivo do deslocamento foi pressionar autoridades norte-americanas a adiar a eventual aplicação de tarifas contra produtos brasileiros e restringir o uso internacional do PIX até depois das eleições municipais. Boulos classificou a movimentação como “vergonhosa” e afirmou que o senador prioriza sua agenda política.
A repercussão provocou questionamentos ao ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa. Em conversa com jornalistas, o titular do MDIC evitou comentar diretamente a atuação do senador.
“Eu prefiro não falar absolutamente nada. Eu prefiro falar, absolutamente, apenas aquilo que, de fato, está ocorrendo, que é essa representação importante para a negociação”, respondeu.
Rosa disse que, com o prazo apertado, a equipe envolvida nas tratativas precisa “focar naquilo que pode dar resultado positivo para o Brasil”. O ministério integra o grupo que dialoga com o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), responsável pela investigação que pode culminar em nova sobretaxa.
Em 1º de junho, o USTR divulgou relatório preliminar sugerindo sobretaxa de 25% sobre importações brasileiras, excluindo a maior parte dos produtos agropecuários. A audiência pública desta semana, realizada no 2º andar do edifício sede do órgão, faz parte das etapas finais da análise. A decisão sobre a implementação das medidas segue prevista para 15 de julho.
O ministro voltou a dizer que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva orientou a equipe a manter o Brasil na mesa de negociação multilateral.
“Que nada nos retira desse campo de multilateralismo e do campo democrático. Com muito respeito ao que outros reivindicam, mas sem jamais abdicar dos interesses do Brasil. É isso que o presidente Lula nos pede todo dia”, afirmou.
Integrantes do corpo técnico do MDIC e do Ministério das Relações Exteriores acompanham o processo de perto. Nas avaliações internas, a eventual adoção de tarifas punitivas traria impacto imediato para segmentos de máquinas, têxteis, calçados e bens de capital. Representantes desses setores reforçaram, em contatos recentes com o governo, preocupação com custos e perda de competitividade.
No Congresso Nacional, líderes partidários manifestaram posicionamentos distintos. Parlamentares governistas entenderam a viagem como tentativa de “interferência externa” no calendário eleitoral brasileiro. Já aliados do PL argumentaram que a visita buscou expor críticas ao que chamam de “excessos regulatórios” praticados pelo Planalto.
Apesar do ruído político, técnicos lembram que o processo no USTR prevê consulta pública, avaliação jurídica e parecer final antes do anúncio, o que abre margem para entendimento. Até lá, o Itamaraty calcula que restam pouco mais de 30 dias para apresentar novas contrapartidas ou solicitar arbitragem em fóruns multilaterais.
Flávio Bolsonaro não se pronunciou oficialmente sobre as declarações de Boulos. Nos bastidores, assessores do senador dizem que ele seguirá buscando “canal direto” com congressistas norte-americanos para defender mais prazo nas discussões tarifárias.
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