Uma queda no rachão mudou tudo. Emerson luxou o ombro ao tentar defender um chute de Rivaldo e foi cortado da Copa horas antes da estreia do Brasil.
Em 2 de junho de 2002, a pouco mais de 72 horas da estreia do Brasil na Copa do Mundo da Coreia do Sul e Japão, o volante Emerson protagonizou um dos episódios mais inesperados da história recente da Seleção. Durante o tradicional “rachão” de véspera de jogo, no gramado do Munsu Stadium, em Ulsan, o então capitão decidiu brincar de goleiro. A escolha custou caro: uma queda desajeitada após chute forte de Rivaldo resultou em luxação no ombro direito, diagnosticada minutos depois pelo departamento médico.
Sem luvas e sem apoio adequado na aterrissagem, Emerson sentiu dor imediata e deixou o campo com o braço imobilizado. Exames de ressonância magnética confirmaram lesão ligamentar grave, com previsão mínima de quatro semanas para recuperação. O regulamento da Fifa permitia substituições médicas até 24 horas antes da primeira partida, e a comissão técnica agiu rápido: o meia Ricardinho, que defendia o Corinthians, foi chamado às pressas para integrar o grupo.
“Eu era o capitão do Felipão, mas ele me tratou como um qualquer”, lamentou Emerson anos depois, afirmando ter descoberto o corte por terceiros e nunca mais ter conversado com o treinador.
Luiz Felipe Scolari, por sua vez, relatou em seu diário de campanha que a decisão foi “uma das mais dolorosas da carreira”, descrevendo o silêncio que tomou conta do vestiário e o esforço para animar o elenco. Com Emerson fora, Gilberto Silva deixou o banco para assumir a vaga de primeiro volante e virou peça-chave da campanha vitoriosa. Já a braçadeira de capitão passou para Cafu, que ergueria a taça do pentacampeonato semanas depois em Yokohama.
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O episódio marcou também o início de um distanciamento pessoal entre jogador e técnico. Emerson defendia a permanência com a delegação para tratamento na Ásia, crendo na chance de voltar ao time durante o torneio. A comissão, porém, avaliou que a recuperação não seria viável no curto prazo e priorizou a reposição imediata.
A saída repentina do capitão provocou ajustes táticos profundos. Com Gilberto Silva consolidado à frente da defesa, Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho ganharam liberdade ofensiva. O novo volante atuou todos os minutos do Mundial e virou símbolo de equilíbrio na equipe que conquistou o quinto título mundial.
Casos como o de Emerson não são raros em Copas. Romário sentiu a panturrilha em 1998, Ricardo Gomes ficou fora em 1994 por lesão muscular e Edmílson foi cortado em 2006 por problema no menisco. Ainda nos anos 1980, Careca perdeu a Copa de 1982 após se machucar em treino físico na Espanha.
Vinte e quatro anos depois, a lembrança do rachão que mudou o destino da Seleção ainda gera debate sobre risco desnecessário em atividades recreativas na véspera de competições. Para muitos torcedores, contudo, o desfecho confirma a máxima de que cada revés no futebol pode abrir espaço para novos heróis — e Gilberto Silva, Cafu e companhia aproveitaram a oportunidade para escrever um capítulo inesquecível na história do esporte brasileiro.
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