Há exatamente doze meses, Jair Bolsonaro (PL) publicava o que viria a ser sua derradeira mensagem nas redes sociais antes da suspensão determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. O post — feito em 17 de julho de 2025 — combinava tom de manifesto com menção ao ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Poucas horas depois, entrou em vigor a ordem judicial que retirou o ex-chefe do Executivo das plataformas digitais.
Um ano depois, mesmo ainda fora do ambiente virtual, o ex-mandatário voltou ao centro da agenda política. Desta vez, o motivo foi um manuscrito, batizado de “carta aos brasileiros”, em que manifesta apoio ao projeto eleitoral de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O documento ganhou notoriedade após o próprio parlamentar publicá-lo em seus canais oficiais.
“Tinha caráter privado e jamais deveria circular”, argumentam os defensores do ex-presidente, que preparam recurso para contestar a divulgação.
O texto, de cinco páginas, reforça a narrativa de que o clã Bolsonaro estaria sofrendo perseguição judicial e pede “união de forças” em torno da candidatura de Flávio, que pretende disputar o governo do Rio de Janeiro em 2026. O senador não comentou se pediu autorização prévia ao pai antes de tornar público o conteúdo.
A reaparição de Bolsonaro na pauta coincide com novo abalo na relação comercial entre Brasília e Washington. A Casa Branca anunciou sobretaxa de 25% sobre uma lista de produtos brasileiros — entre eles aço, alumínio e suco de laranja. A medida foi classificada por interlocutores do Palácio do Planalto como “tarifaço” e reacendeu o debate sobre retaliações equivalentes por parte do Brasil.
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Integrantes do Ministério das Relações Exteriores veem ligação política entre a decisão norte-americana e as críticas de Trump ao julgamento de Bolsonaro no STF. Auxiliares presidenciais, porém, evitam atribuir motivação direta, alegando que os dois temas caminham em trilhas paralelas: a disputa comercial e a controvérsia jurídica envolvendo o ex-presidente.
Nos bastidores, o governo sinaliza disposição para negociar a retirada da sobretaxa, mas não descarta adotar contramedidas se não houver recuo. Técnicos da pasta econômica estudam elevar impostos de importação sobre combustíveis originários dos Estados Unidos — possibilidade considerada de “último caso”.
Enquanto as conversas diplomáticas se desenrolam, parlamentares governistas e da oposição utilizam a “carta aos brasileiros” como munição política. Aliados do Palácio argumentam que a publicação reforça a tese de que Bolsonaro segue ativo, mesmo impedido de usar as redes. Já a bancada do PL sustenta que a divulgação apenas expõe a dimensão da restrição imposta pelo STF ao ex-presidente.
Com a proximidade do calendário eleitoral de 2026, analistas enxergam na movimentação indício de que o ex-chefe do Executivo deverá desempenhar papel central na campanha, seja como cabo eleitoral, seja como figura a ser criticada pelos adversários. O episódio também coloca em xeque a estratégia de silêncio adotada por Bolsonaro desde a determinação judicial: a carta, embora não tenha sido publicada por ele, gerou repercussão comparável a suas postagens mais influentes.
Diante desse cenário, a expectativa é de que o Supremo Tribunal Federal volte a ser provocado sobre os limites da decisão que mantém o ex-presidente afastado das redes sociais. Até o momento, não há prazo para nova análise do caso, mas ministros ouvidos reservadamente avaliam que qualquer descumprimento direto por parte de Bolsonaro poderá resultar em sanções mais severas.
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