O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, afirmou que a consolidação de parcerias com nações guiadas por valores democráticos é peça-chave para enfrentar a atual onda de instabilidade política e econômica no cenário internacional. O posicionamento foi apresentado durante o AHK Business Breakfast, evento promovido pela Câmara Brasil-Alemanha de São Paulo, realizado esta semana na capital paulista.
Segundo Wadephul, a credibilidade institucional e a previsibilidade jurídica são requisitos indispensáveis para que acordos comerciais prosperem de forma equilibrada. O chanceler classificou o Brasil como um aliado estratégico.
“Faz parte da nossa família”, declarou, ao defender a manutenção de laços históricos que, em sua avaliação, podem ser aprofundados a partir do Acordo Mercosul-União Europeia firmado em maio.
Durante a exposição, Wadephul citou a política tarifária adotada pelo ex-presidente norte-americano Donald Trump como exemplo de desordem econômica que a Alemanha busca evitar. Ao mesmo tempo, ele reconheceu a importância de cooperar com a China, mas enfatizou a necessidade de evitar dependências excessivas.
“Em alguns momentos, é um competidor. Adoramos a concorrência; ela nos impulsiona a desenvolver melhores tecnologias e produtos”, afirmou.
O chanceler lembrou que Berlim passou a adotar medidas de proteção, sobretudo diante do crescimento das exportações chinesas de automóveis a preços inferiores aos praticados no mercado interno, estratégia usada para escoar a produção excedente. “Aprendemos que também precisamos nos defender e coordenar nossa política”, completou.
Na mesma mesa de debate, a vice-presidente do Wilo Group para a América Latina, Svenja Ahlburg, reforçou a relevância do Brasil para a indústria alemã, destacando que o país ainda recebe menos atenção do que merece no debate público europeu.
“Hoje, o Brasil é muito mais importante para a indústria alemã do que aparece nas discussões”, destacou.
A porta-voz cobrou maior oferta de crédito e estímulos à inovação para fortalecer a produção local. Ela defendeu a geração de valor dentro do território brasileiro para que a economia deixe de ser vista apenas como mercado consumidor e passe a funcionar como hub regional.
A conexão econômica entre os dois países já apresenta números expressivos. A Alemanha é o quarto principal parceiro comercial do Brasil, com corrente de comércio que alcançou US$ 21 bilhões, além de estoque de investimento direto superior a US$ 44 bilhões, volume que coloca o país europeu na sétima posição entre os maiores investidores estrangeiros.
No campo ambiental, a colaboração também avança. A Alemanha figura entre os principais financiadores do Fundo Amazônia, mecanismo que apoia projetos de combate ao desmatamento e de promoção da bioeconomia há 18 anos. Somando os contratos firmados em 2010, 2017 e 2022, as contribuições alemãs somam R$ 387,8 milhões. Em abril, Berlim anunciou aporte adicional de R$ 2,94 bilhões ao Fundo Clima, voltado a iniciativas que reduzam emissões de gases de efeito estufa no Brasil.
Com o Acordo Mercosul-União Europeia já assinado, as autoridades alemãs esperam destravar cooperações em áreas como inteligência artificial, tecnologias quânticas, economia circular, infraestrutura e pesquisa oceânica. Para Wadephul, a soma de capacidades tecnológicas dos dois blocos pode acelerar transições verde e digital, pilares centrais da política externa alemã.
Ao encerrar sua participação, o chanceler enfatizou que comércio aberto depende de instituições sólidas. “Democracia, Estado de Direito e respeito a contratos são a base para qualquer parceria confiável”, concluiu, sob aplausos de representantes de empresas dos dois países.
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