A Copa do Mundo de 2026 segue mostrando que, mesmo com a ampliação para 48 seleções e a inclusão da fase de 16-avos de final, o torneio continua atraído por velhos fantasmas. Cinco confrontos desta edição repetem duelos que marcaram décadas anteriores e voltam a testar traumas que pareciam superados. Brasil x Noruega, Brasil x Escócia, Espanha x Uruguai, Portugal x Espanha e Estados Unidos x Bélgica formam o eixo dramático que domina as conversas de torcedores e analistas.
O exemplo mais contundente dessa repetição veio no domingo, 5 de julho, quando o Brasil caiu nas oitavas por 2 a 1 diante da Noruega, em Nova Jersey. O placar e o algoz foram exatamente os mesmos do revés de 1998, reforçando o incômodo tabu: a equipe nórdica continua sem jamais ter perdido para a seleção sul-americana em competições oficiais.
Outro capítulo de déjà-vu ocorreu ainda na fase de grupos. Brasil e Escócia se enfrentaram pela quinta vez em Copas, estendendo a parceria estatística iniciada em 1974. O choque mais lembrado permanece o de 1982, quando Zico comandou a virada por 4 a 1 na Espanha, mas o encontro de 2026 adicionou um novo parágrafo à longa rivalidade.
No lado europeu, Portugal e Espanha voltarão a medir forças nas oitavas. O duelo, agendado para 6 de julho, em Dallas, revive o choque de 2010 – que abriu caminho para o título espanhol – e o inesquecível empate por 3 a 3 de 2018, coroado pelo hat-trick de Cristiano Ronaldo. A mesma tensão também ronda Espanha x Uruguai, jogo que selou o destino do Grupo H em Guadalajara e resgatou a memória de 1950, quando Obdúlio Varela manteve vivo o sonho celeste antes do histórico Maracanazo.
A tabela reservou ainda Estados Unidos x Bélgica, confronto em Seattle que remete à angustiante eliminação norte-americana de 2014, marcada pelas defesas de Tim Howard, e ao inesperado 3 a 0 ianque na Copa inaugural de 1930.
Especialistas apontam que o formato inflado potencializa reencontros a partir das fases mais agudas. Quanto mais camisas pesadas avançam, maior a chance de repetições. Mesmo assim, 27 partidas de 2026 colocaram seleções frente a frente pela primeira vez, sinal de que o projeto de globalização da FIFA também rende histórias novas.
Para os elencos atuais, o peso estatístico não é mera curiosidade. Entrar em campo ciente de que um rival jamais foi superado ou que já despachou um grande favorito mexe com a confiança e dita estratégias. Carlo Ancelotti, técnico brasileiro, reconheceu após a queda para a Noruega que a aura negativa sobre o adversário influencia: “O passado não ganhou o jogo sozinho, mas criou o cenário mental perfeito para eles acreditarem“, avaliou.
Entre tabus que persistem e clássicos que ganham novos capítulos, a Copa de 2026 reafirma que a modernização do futebol não rompe necessariamente com sua herança. Ao contrário, cada ampliação de formato parece ampliar também o espelho retrovisor do torneio, onde memórias gloriosas ou dolorosas continuam definindo rumos no presente.
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