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Negacionismo e pandemia: a batalha pelo convencimento do óbvio


Publicado 07 de julho de 2021 às 06:02     Por Dhenef Andrade     Foto Arquivo / Agência Brasil

Uma vizinha apta a receber doses da vacina contra o novo coronavírus (covid-19) se recusa a ficar imunizada. Uma rápida volta nas ruas e máscaras de proteção são usadas no queixo, penduradas na orelha ou sequer estão no rosto de alguns. São tempos difíceis. O Brasil ultrapassou a marca de 524 mil mortos por conta da doença. A escalada no número de óbitos foi tão rápida que em 90 dias o país somou mais de 200 mil vítimas. Desde de março de 2020 informações sobre como se proteger fazem parte da nossa rotina. Por que mesmo rodeado de recomendações ainda é forte o movimento de refutá-las? 

Antes é necessário entender o ato de negar. O psicólogo Rodrigo Dillan, de 26 anos,  integrante do Núcleo Psicanalítico de Aracaju (NPA), explica que o processo de negação é o primeiro ato de alguém frente a uma situação de desamparo, de extremo medo ou de extrema aflição. “Diante de uma situação iminente de perda, de morte, de intensa instabilidade, a negação, um modo de defesa primário do nosso desenvolvimento, surge como uma resposta diante dessas angústias. O que é interessante, entretanto, é que se por um lado a pessoa nega que sente tal angústia, que a pandemia é só uma ‘gripezinha’, que basta ser atleta, por outro essa negação funciona justamente como reveladora dessa angústia e desse medo”, disse ele em entrevista ao Ajunews

Desde a confirmação da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que o globo enfrentava a partir de então uma pandemia,  a partir da explosão de casos da cepa Sars-Cov-19 na cidade chinesa de Wuhan, diversas notícias falsas, as chamadas fakes news, culpabilizando o país por criar em laboratório a doença se espalharam pelo planeta. No Brasil isso ganhou ares ainda mais inflamados. O ‘vírus chinês’ estava na boca dos vizinhos, de familiares e de políticos. Não somente a disseminação da inverdade, a negação da existência da doença, que vinha a cada semana apresentando índices de mortalidade em escalada no país, também começaram a emergir. As três regras para evitar a contaminação, uso da máscara, álcool gel e distanciamento social, eram, e são, minimizadas. A resistência partia inclusive após recomendações de órgãos máximos da Saúde estadual, federal e mundial.

O movimento negacionista, no entanto,  não é algo novo, conforme explica o psicanalista. “Na época, por exemplo, em que os primeiros diagnósticos de HIV estavam sendo feitos, era comum os pacientes negarem estar com o vírus e alguns chegavam a criar grupos contra os tratamentos desse período. Para considerar as orientações e evidências científicas, aqui incluídos os tratamentos e a vacina, trazendo para o contexto o covid-19, é preciso antes afirmar para si mesmo que seu sistema de proteção ‘caiu por terra’. Isso gera sentimentos de desamparo, medo, angústia, é uma fissura em si mesmo e em todo sistema social, onde a negação surge como uma resposta diante da dificuldade em lidar com esses sentimentos”.

A sustentação de argumentos descontextualizados e fake news podem ter contribuído para que o negacionismo ganhasse mais destaque em tempos pandêmicos. Além do ‘vírus chinês’, outros exemplos de desinformação que chegavam nos grupos de WhatsApp, principal fonte de informação para maioria dos brasileiros, segundo pesquisa da Câmara dos Deputados e Senado, estão o de que o uso da máscara poderia causar asfixia por retenção de gás carbônico e que a vacina alteraria o DNA das pessoas. Além da disseminação de um vídeo de que em Manaus, que chegou a não ter vagas em cemitérios por conta do elevado número de óbitos por covid, estaria enterrando caixões vazios.   

“Uma das coisas que me chama atenção, é o intenso sentimento de exclusividade que esses movimentos trazem consigo. É o discurso de ‘você não sabe, eu sei’; ‘eu tenho a verdade, vocês não’; ‘eu não preciso de vacina, eu tomo cloroquina’. Quer dizer, se corta qualquer canal de questionamento, de diálogo e de contradição, em prol de um sentimento de superioridade ilusório contra o golpe recebido em seu narcisismo. Ou seja, desse ponto de vista, para estas pessoas, quem defende vacina, lockdown, máscara e isolamento social é que atesta contra o bem-estar e que quer ‘acabar com a economia’”, completa Rodrigo.

A médica Larissa Barrêto, de 25 anos, enfrenta situações de resistência de alguns pacientes frente à pandemia. Ela ingressou na Atenção Básica em meio à crise sanitária e relata que na sua área de atuação, no bairro 17 de Março, Zona Sul de Aracaju, utiliza o espaço das consultas para conscientização. “Minha área de abrangência é composta por moradores extremamente carentes, muitos deles analfabetos ou semianalfabetos, que têm pouco ou nenhum acesso à informação de qualidade, decidi que seria primordial introduzir durante os meus atendimentos assuntos relacionados ao panorama atual, buscando formas de alcançar certa compreensão do que é uma pandemia, como o vírus se multiplica e como podemos frear o avanço da doença”, disse ela que chegou a atender, entre 1 de abril até 1 de junho deste ano, pico da segunda onda em Sergipe, mais de 500 pessoas

Para Larissa, em especial na questão da relutância quanto à vacinação, publicações repletas de notícias falsas e a desinformação de forma geral ajudam nesse comportamento. “Os discursos são muitas vezes pautados por razões políticas, principalmente ligados às atitudes de Jair Bolsonaro, que faz um desserviço à população de forma geral. Muitos pacientes reproduzem fake news desenfreadamente, sem nenhum senso de verdade”. Ela ainda cita que também há influência de líderes religiosos ‘de que um suposto Deus protegerá os mesmos de contraírem a doença’.

Fora da curva de casos que envolvem as consequências de falhas na cobertura de educação básica, quem tem acesso à informação e mesmo assim refuta o bom senso e à ciência exibe também uma falta de empatia, opina Dillan. “Se pensarmos que a empatia nada mais é que um movimento em direção ao outro, a negação é um bloqueio nessa via. É uma incapacidade que se dá pois antes de partirmos em direção ao outro, a ponto de reconhecer sua dor, vulnerabilidade e medo, precisamos antes reconhecer isso em nós mesmos. Se tomarmos, dessa forma, como pertinente o que estamos vendo até aqui, sabemos que na negação esse reconhecimento não acontece”.

O panorama político tem influência no contexto de manada negacionista. Rodrigo entende que com a instalação de um sentimento de instabilidade social e política cada vez maior, que foi se desenvolvendo ao longo dos últimos anos, o surgimento de um líder messiânico, com um viés de salvador da pátria, é quase que esperado. “Mas a gente precisa lembrar, também, que ele foi colocado pela maioria da população por um viés democrático. Ou seja, é uma via de mão dupla. Existe a influência por conta dessa imagem de poder, mas ela se retroalimenta a partir de um modelo já presente naqueles que o elegeram e que ainda seguem convictos de tudo que ele propaga. Da mesma forma, é importante ressaltar o uso instrumental que o governo faz de toda essa situação. Apontando inimigos, instaurando ainda mais incertezas, aumentando a divisão social, incitando a violência com o único e exclusivo objetivo de faturar politicamente em cima disso”, destaca ele.

Em tempos de discursos inflamados pode ser difícil encontrar disposição para dialogar com quem detém atitudes que põe em risco a saúde de todos. No entanto, esse ‘trabalho de formiguinha’ é fundamental para encontrarmos a saída para o caos da pandemia. Atitudes simples podem fazer a diferença, seja no consultório, no local de trabalho, em casa ou nos grupos de família do WhatsApp. “Lutar contra o negacionismo é exaustivo. Combatê-lo é um ato de resistência. A melhor estratégia que encontrei foi o acolhimento. Utilizo o método clínico centrado na pessoa, buscando entendê-la como um todo, abrangendo o biopsicossocial, e assim compreender dúvidas e discursos duvidosos para só depois expor os dados mais atuais e exemplos da redução do número de casos graves e óbitos através da vacinação, da manutenção do distanciamento social e de medidas de higiene como uso de máscaras e álcool em gel”, afirma Larissa.

Em psicanálise, explica Dillan, tudo depende da relação que estabelecemos com o outro. “Uma vez que somos admitidos nesse mundo, podemos então requisitar o nosso próprio lugar nele, participar enquanto alguém também dotado de subjetividade e de opiniões que talvez não precisem mais ser vistas como violentas e agressivas. Penso que nosso trabalho, nesse sentido, é o de construir, juntos, estruturas mais fortes capazes de suportar aquilo que aflige, sem precisar recorrer a instrumentos de negação que colocam em risco tanto a própria saúde como a dos outros”, diz o psicólogo. 

Educação de base serve como horizonte possível para combater o negacionismo. Atingimos o macro a partir do micro e, embora demande esforço e paciência, isso vale a pena no fim das contas. Diversos exemplos ao longo de quase dois anos de crise sanitária, com números alarmantes, apontam para o sucesso dessas pequenas atitudes. “O processo persuasivo leva certo tempo, entre consultas de rotina e encontros pelos corredores da UBS, mas é possível e bastante satisfatório conseguir que entendam a necessidade e busquem a imunização”, garante a médica usando o educador Paulo Freire como referência. “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”.



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