Valor recorde, o débito dobrou desde 2017 e reflete cortes de impostos, tarifas e gastos militares perto de US$ 1 trilhão. Inflação ligada à guerra no Oriente Médio e juros — que custaram US$ 419 bi ao Tesouro em 2021 — agravam o debate fiscal.
A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou a marca histórica de US$ 40 trilhões, o dobro do registrado em 2017. Economistas ouvidos apontam uma combinação de fatores para o salto: cortes de impostos voltados às faixas de renda mais altas, tarifas de importação adotadas no governo Donald Trump, inflação impulsionada pela guerra no Oriente Médio — que pressiona o preço do petróleo — e manutenção de gastos militares na casa de US$ 1 trilhão.
Os juros da própria dívida também entram na conta. Em 2021, o Tesouro norte-americano desembolsou US$ 419 bilhões para remunerar detentores de títulos; em 2026 esse valor atinge US$ 1,1 trilhão. Especialistas explicam que o aumento reflete, além da inflação, o chamado “risco Trump”, ou seja, a incerteza provocada por disputas comerciais como a que elevou tarifas sobre produtos canadenses.
Apesar do número impressionante, analistas afastam qualquer cenário iminente de insolvência. Dois terços dos papéis em mercado estão nas mãos de investidores domésticos, enquanto US$ 4,5 trilhões permanecem no balanço do Federal Reserve (FED). Outros US$ 8 trilhões pertencem a agências federais, reduzindo a fatia realmente sujeita a variações de confiança internacional.
“Um governo que emite a principal moeda de reserva global não quebra contra a própria vontade. Se faltar demanda, o FED pode intervir, como fez em 2020 ao expandir o balanço em quase US$ 3 trilhões”, observou o professor Pedro Paulo Zahluth Bastos, do Instituto de Economia da Unicamp.
Bastos lembra que, terminado o conflito de 1942 a 1951, o banco central travou juros longos em 2,5%, prática que poderia ser retomada se necessário. Já o economista e historiador Pedro Faria pondera que o montante, isoladamente, “não diz muita coisa” sobre a capacidade de pagamento. Ele destaca que parte das principais economias opera em déficit desde 2008.
Entre abril e agosto deste ano, a dívida saltou US$ 1 trilhão, ritmo mais acelerado que o previsto pelo Escritório de Orçamento do Congresso, que projetava atingir o patamar de US$ 40 trilhões apenas em 2027. A escalada pressiona o Tesouro a reforçar leilões: a partir de 9 de setembro, o volume de recompra de títulos deve dobrar de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões por operação.
O debate sobre déficit se cruza com o de tributação. Reduções de impostos aprovadas nos mandatos de Trump diminuíram a arrecadação e elevaram a projeção de déficit em US$ 4,7 trilhões para a próxima década, ao mesmo tempo em que programas de saúde perderam cerca de US$ 1 trilhão em recursos. Bastos observa que, somente neste ano fiscal, a receita de imposto sobre lucros caiu 23%, enquanto os pagamentos de juros beneficiam majoritariamente grandes fundos, bancos e famílias mais ricas: “O 1% mais rico detém metade das ações do país”.
Com carga tributária equivalente a 25% do Produto Interno Bruto — abaixo dos 34% da média da OCDE —, os EUA arrecadam relativamente pouco para o nível de gasto, avaliam os especialistas. Faria ressalta que o chamado “risco político” também pesa: impasses no Congresso sobre o teto legal da dívida podem atrasar pagamentos e elevar o custo de captação.
No Brasil, o panorama americano tende a manter os juros em patamar elevado. Investidores, diante da maior remuneração oferecida pelo Tesouro dos EUA, exigem prêmios adicionais para aplicar em países emergentes, cenário que limita o espaço de cortes agressivos na taxa Selic.
Enquanto o Congresso norte-americano discute novas medidas fiscais, o mercado segue de olho na trajetória dos juros de longo prazo e na capacidade do país de acomodar gastos com defesa, saúde e previdência sem ampliar ainda mais o endividamento. Por ora, o consenso dos economistas é que os EUA dispõem de instrumentos monetários para evitar um calote — mas o custo dessa segurança recai, cada vez mais, sobre o orçamento federal e, indiretamente, sobre toda a economia global.
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