Entrevista


‘Demora de resultados da covid-19 influenciam indiretamente aumento de casos em Sergipe’, afirma professor da UFS


Publicado 03 de janeiro de 2021 às 07:30     Por Larissa Barros     Foto Arquivo Pessoal

Em Sergipe, mais de 4 mil pacientes aguardam o resultado dos exames para detecção do novo coronavírus. De acordo com o especialista em imunologia e professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Diego Moura Tanajura, a demora na entrega dos resultados do RT-PCR “acaba tendo influência indireta” no aumento de casos da doença no estado.

Em entrevista ao AjuNews, o especialista afirmou que o atraso dos resultados dos exames processados pelo Laboratório Central de Saúde Pública de Sergipe (Lacen-SE) pode influenciar o crescimento de casos por serem dados abaixo da realidade.

“Isso acaba influenciando indiretamente no aumento de casos do nosso estado porque não tem dados reais sobre a pandemia, para poder conscientizar as pessoas de como está a nossa situação, que a situação do nosso estado não está tranquila ainda”, afirmou.

À reportagem, o professor destacou que as pessoas que tiveram um comportamento de risco, não fizeram o uso da máscara e entraram em contato com alguém que estava infectado, precisam se isolar por pelo menos dez dias.

“A pessoa tem que ter consciência do seguinte, você não apresentar os sintomas não quer dizer que você não esteja infectado. É muito provável que você esteja infectado e aí, você acaba espalhando o vírus mais facilmente, justamente porque você acha que está bem, que não pegou o vírus por não estar sentindo nada, e começa a ter comportamentos de risco”, explicou.

Leia a entrevista completa:

AjuNews: Atualmente, mais de 5 mil exames da covid-19, em Sergipe, aguardam o resultado ser liberado pelo Lacen. Em sua avaliação, essa demora na entrega dos resultados pode influenciar o aumento de casos de infecções no estado?
Diego Tanajura: Essa demora na entrega dos resultados do RT-PCR acaba tendo influência indireta, digamos assim, no aumento de casos no nosso estado. Isso acontece, justamente porque os dados que são liberados, são dados abaixo da realidade. Porque, devido a alta demanda, é importante frisar isso, que o Lacen não está conseguindo dar conta por conta da alta demanda. Então, devido a essa alta demanda o Lacen não está conseguindo realizar todos os exames e está dando preferência para aquelas pessoas que têm sintomas. Então, isso acaba influenciando indiretamente no aumento de casos do nosso estado porque não tem dados reais sobre a pandemia, para poder conscientizar as pessoas de como está a nossa situação, que a situação do nosso estado não está tranquila ainda. Temos observado o aumento do número de casos, esse aumento ainda não reflete a realidade por conta dessa demanda reprimida que está tendo no Lacen. Então, acaba sim, influenciando. Agora, independente disso, as pessoas tem que ter consciência também de que, se ela teve um comportamento de risco, entrou em contato com alguém que apresentava os sintomas da covid-19, ou então entrou em contato com alguém sem sintomas, mas com RT-PCR positivo, essa pessoa automaticamente tem que se isolar. Ela tem que ficar isolada independente de conseguir fazer o RT-PCR ou não. Ela tem que ficar isolada por pelo menos dez dias ou então conseguir fazer o exame do RT-PCR e saber seu resultado. Então, a pessoa tem que ter essa consciência também, para não levar o aumento de casos aqui no nosso estado.

AjuNews: Quais as recomendações as pessoas que começam a suspeitar que estão infectadas pelo novo coronavírus devem seguir para evitar a proliferação do vírus?
Diego Tanajura: Se você teve um comportamento de risco, não fez o distanciamento social, não fez o uso da máscara e acabou entrando em contato com alguém que estava infectado, alguém que tinha os sintomas ou tinha o RT-PCR positivo você tem que isolar por pelo menos dez dias, caso não apresente os sintomas. A pessoa tem que ter consciência do seguinte, você não apresentar os sintomas não quer dizer que você não esteja infectado. É muito provável que você esteja infectado e aí, você acaba espalhando o vírus mais facilmente. Justamente porque você acha que está bem, que não pegou o vírus por não estar sentindo nada, e começa a ter comportamentos de risco. Começa não se conscientizando com o uso da máscara, se aglomerando e tudo mais. Então, as recomendações são essas, é você fazer o isolamento até conseguir realizar o RT-PCR ou então até ficar dez dias isolado. Essa é a recomendação. O grande problema desse vírus, do SARS-COV 2 é que a pessoa se infecta e demora uns três a quatro dias para apresentar os primeiros sintomas. Então, a pessoa se infecta, não acaba tendo aquele cuidado de se isolar e antes de apresentar os sintomas começa a sair pelas ruas, se encontrando com familiares, amigos e tudo mais, o vírus acaba se espalhando, porque a pessoa acha que por não ter sintomas está bem.

AjuNews: Enquanto especialista, qual a sua avaliação sobre o plano de vacinação apresentado pelo Ministério da Saúde? Quais grupos devem ser priorizados?
Diego Tanajura: O Ministério da Saúde teve muita morosidade em publicar esse plano nacional de imunização. Precisou ter muita pressão popular, pressão dos cientistas, pressão até do Supremo Tribunal Federal (STF) exigindo que esse plano fosse divulgado. Então, precisou ser judicializado para o Ministério da Saúde acabar divulgando o seu plano, até divulgando com um certo atraso comparado aos outros países. O Ministério da Saúde se justificava falando que não tinha vacina: se não tinha vacina ainda, como divulgar um plano. A questão é que, um plano, você lança justamente antes de ter a vacina para você poder se preparar. Ele é um plano, justamente isso. Com relação a formatação, sobre os grupos de risco e tudo mais, ele está de acordo com o que está acontecendo também em outros países. Não dá para vacinar todo mundo nesse primeiro momento, a realidade é essa. É o mundo todo precisando vacinar e correndo atrás de uma vacina. O que acaba acontecendo é que você tem que acabar priorizando os grupos de maiores riscos. Então, acaba priorizando os profissionais da saúde, que estão na linha de frente do enfrentamento da pandemia. Priorizando os idosos, a gente sabe que as pessoas de mais idade tem o maior risco de desenvolver as formas graves da covid-19, as complicações. O que eu incluiria nesse plano, incluiria os imunossuprimidos, aquelas pessoas que têm alguma deficiência no sistema imunológico, ou está fazendo algum tipo de tratamento que acaba diminuindo a sua imunidade. A depender da vacina que utilize aqui no Brasil, daria para incluir essa população, que é uma população de risco. Por exemplo, a vacina do Butantan, que é feita de vírus morto, é uma vacina segura para essa parte da população, os imuno suprimidos. Então a única coisa que senti falta foi justamente a inclusão desse grupo. No mais, a gente vai ter que priorizar os grupos de maiores riscos porque não tem vacina para todos.

AjuNews: Em sua análise, em caso de demora do governo de Sergipe para dar início à vacinação contra a covid-19, qual seria a maneira mais adequada para frear o aumento de casos?
Diego Tanajura: Não seria bem a demora do governo de Sergipe, porque o plano de vacinação é um plano nacional. Então, é a demora do Ministério da Saúde, do órgão federal, em chamar para si a responsabilidade do programa nacional de vacinação, de tomar a frente disso e começar a traçar os planos, as medidas e tudo mais. De já explicar à população, os estados e municípios, como é que vai funcionar a vacinação contra a covid-19. Isso já era possível de ser feito porque nós temos, pelo menos, duas vacinas disponíveis, uma pela Fiocruz, que é a vacina de Oxford com a Astrazeneca, e a outra é com o Butantan, a CoronaVac, a vacina chinesa. Então, nós já temos possíveis vacinas para ser utilizada aqui no país. O que precisa mesmo, é o Governo Federal, o Ministério da Saúde tomar frente disso. Claro, com a ajuda dos estados e municípios. Mas, o que está acontecendo é justamente pela demora do Ministério da Saúde em tomar a frente disso, alguns estados e municípios começam a fechar esses contratos por conta própria. Então, isso está acontecendo mais por conta da morosidade do Ministério da Saúde.

Falar em fechamento do comércio, neste momento atual, acho que isso tem que ser em último caso. Porque se você fechar o comércio por agora, quem não quebrou lá no início da pandemia, com primeiro fechamento, quebra agora. O que a gente tem observado são lojas fechadas aí pela cidade, pelo estado e tudo mais. Pessoas que perderam seus empregos. Então, falar em fechar é algo para último caso. O que tem que acontecer é justamente as pessoas terem consciência que a pandemia não acabou. Não vai adiantar fechar o comércio e as pessoas continuarem a fazer suas festas clandestinas, se aglomerando, como a gente tá vendo essas festas acontecerem por todo o estado. Então, de nada adianta fechar o comércio, se a população não mudar esse comportamento. As pessoas têm que conscientizar, a pandemia não acabou, tem que evitar aglomerações, evitar essas festas, encontros e tudo mais. A gente está aí, chegando o réveillon, então, a pessoa tem que ter consciência de passar seu réveillon com aquelas pessoas do seu grupo familiar mesmo. Vamos deixar para fazer essas grandes comemorações depois que sair a vacina. Vamos dar uma segurada nisso aí. Para frear esse número de casos as pessoas têm que ter consciência que a pandemia não acabou, fazer o distanciamento social, o uso da máscara. Essas medidas de proteção que a gente sabe que são eficazes sim para frear o contágio.



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