Entrevista


‘Epidemia do HIV cresceu muito entre as mulheres em Sergipe’, afirma especialista


Publicado 17 de dezembro de 2020 às 07:17     Por Larissa Barros     Foto Arquivo Pessoal

Cerca de 5.300 casos de Aids em adultos foram diagnosticados, em Sergipe, até 31 de outubro ddeste ano, desde o primeiro registro da doença no estado, em 1987. Destes, 3.690 foram do sexo masculino e 1.709 do sexo feminino, de acordo com o coordenador do Programa estadual IST/Aids, o médico José Almir Santana.

Em entrevista ao AjuNews, o especialista afirmou que foram notificados também, no mesmo período, 2.869 adultos com o HIV, sendo 1.924 do sexo masculino e 945 do sexo feminino; 127 casos em menores de 13 anos ( 52 do sexo masculino e 75 do sexo feminino); 98 crianças menores de 5 anos (41 do sexo masculino e 57 do sexo feminino);

De acordo com Santana, no início da epidemia do HIV os homens eram os mais infectados. No entanto, atualmente, a infecção tem atingido mais mulheres. “Hoje, são dois homens para uma mulher com AIDS. Isso significa que a epidemia do HIV cresceu muito entre as mulheres”.

Ainda segundo o médico, o maior desafio para quem recebe o diagnóstico é começar logo o tratamento. “Quanto mais cedo iniciar o tratamento melhor será para a vida da pessoa. Então, é testar e tratar, porque vai evitar as infecções oportunistas que poderão surgir depois. Por isso que hoje é importante fazer o teste”, disse.

Ao todo, Sergipe já registrou 5.399 casos de AIDS e 1.549 óbitos de adultos com causa básica definida como “doenças pelo vírus do HIV” e 20 óbitos em crianças.

Leia a entrevista completa:
AjuNews: Em sua avaliação, ainda existe muito preconceito com relação ao HIV? Um As pessoas ainda confundem a doença com o vírus ?
Almir Santana: Existe ainda preconceito tanto com o HIV quanto com relação a AIDS. Diminuiu muito, mas no início era muito difícil. Nós observávamos preconceito nas escolas, nas empresas, principalmente nesses dois setores da sociedade. Reações de rejeição a crianças nas creches, reações de empresas que queriam demitir funcionários porque se declararam que eram HIV positivo. Então, hoje é bem menor. Ainda percebemos em alguns setores atitudes preconceituosas. Por exemplo, ainda hoje há setores querendo exigir o teste de HIV para concurso. Isso caracteriza uma reação preconceituosa. Tem gente que confunde ter AIDS e ter HIV. A gente sempre procura esclarecer que ter AIDS é a doença já manifestada e HIV é ter o vírus. São situações diferentes, embora hoje todos os dois sejam submetidos ao tratamento com os medicamentos. Antigamente, só quem se tratava era quem já tinha AIDS, as manifestações clínicas. Hoje não, fez o teste, deu positivo, confirmou, começa o tratamento.

AjuNews: Entre homens e mulheres, qual o sexo que mais tem registro de infecção pelo HIV em Sergipe?
Almir Santana: Comparando a questão de sexos, no início da epidemia do HIV eram 16 homens para uma mulher com HIV ou com AIDS. Hoje, são dois homens para uma mulher com AIDS. Isso significa que a epidemia do HIV cresceu muito entre as mulheres, então está cada vez mais aproximando o número de mulheres [infectadas] do número de homens.

AjuNews: Quais os maiores desafios para os pacientes que são diagnosticados com HIV e como é realizado o tratamento?
Almir Santana: O maior desafio para quem recebe o diagnóstico é começar logo o tratamento. Quanto mais cedo iniciar o tratamento melhor será para a vida da pessoa. Então, é testar e tratar, porque vai evitar as infecções oportunistas que poderão surgir depois. Por isso que hoje é importante fazer o teste. Também tem um outro benefício, quem faz o teste, deu reagente e começou o tratamento, esse tratamento dando certo vai diminuir a carga viral, a quantidade de vírus no sangue. Consequentemente, essa pessoa que está em tratamento dificilmente vai infectar outra numa relação sexual sem preservativo. Então, hoje, o tratamento além de ser bom para a pessoa que tem HIV é bom também para a comunidade, porque essa pessoa não vai transmitir o HIV para outras e também não vai contribuir para o nascimento de crianças com HIV. A pessoa com HIV pode ter relação sexual com uma mulher, essa mulher engravidar e pode infectar o bebê. Mas, se estiver em tratamento com carga viral indetectável, essa possibilidade é praticamente mínima. Também, a mulher que tem o HIV e fica grávida também tem um tratamento, uma profilaxia para evitar que o bebê nasça infectado.

AjuNews: A AIDS é uma doença que ainda não tem cura, em sua opinião, qual a importância de manter o tratamento?
Almir Santana: O tratamento para quem tem HIV é feito com um grupo de medicamentos chamados anti-retrovirais. Antigamente eram chamados de coquetel porque eram vários medicamentos tomados de uma vez só. Antigamente, por exemplo, tinham pessoas que tomavam 30 comprimidos em um dia. Hoje, no tratamento existe a opção até de um comprimido ao dia. Então, houve uma evolução grande com relação ao tratamento. Tem dado bons resultados e transformado as pessoas em pessoas indetectáveis. Quer dizer que a quantidade de vírus cai tanto que o aparelho não consegue identificar e isso é bom em termos de qualidade de vida.

AjuNews: Hoje é mais fácil o paciente conviver com a doença após o diagnóstico?
Almir Santana: Hoje, é bem mais fácil conviver com o HIV do que antigamente. Eu alcancei uma época em que nós não tínhamos nada o que fazer com esses pacientes porque não tínhamos medicamentos. Depois teve a fase que tratava os sintomas, depois vieram os medicamentos a partir de 1996, vieram os medicamentos anti-retrovirais e que mudaram todo o quadro da vida de quem tinha HIV. Então, hoje, é bem melhor porque as opções de tratamento estão dando excelentes resultados.

AjuNews: Quais os avanços que ocorreram no tratamento da doença?
Almir Santana: Os avanços com relação ao HIV e a AIDS estão em relação à prevenção, porque antigamente, a única opção para prevenção era a camisinha, o preservativo. Hoje, existem as chamadas novas tecnologias de prevenção, são os grandes avanços. Existe a PEP e a PREP, a PEP quer dizer Profilaxia Pós-Exposição e a PREP significa Profilaxia Pré-Exposição. Na PEP, se a camisinha romper, a camisinha estourou ou a pessoa teve uma relação com alguém e descobriu que esse alguém era soropositivo, ela tem 72 horas para tomar uma decisão. Até 72 horas deve procurar uma urgência e revelar que teve uma relação e a camisinha rompeu. Essa pessoa vai ser submetida ao teste rápido e se der negativo ela vai levar para casa uma medicação que vai usar por 28 dias. Quando terminar a medicação ela vai ser submetida ao teste novamente para saber se está infectada ou não. Isso se chama PEP, e hoje funciona em alguns hospitais e unidades de pronto atendimento. Aqui em Aracaju é no Nestor Piva e na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Augusto Franco. No interior, está nos hospitais regionais. A PREP, Profilaxia Pré-Exposição é para aquelas pessoas que não querem usar camisinha e se expõem ao risco com frequência. É indicada também para casais onde um é HIV e o outro não é HIV. Esse que não é vai utilizar a PREP, e funciona aqui em Aracaju no Hospital Universitário.

Serviço
Os testes rápidos para HIV, sífilis e Hepatites Virais B e C estão disponíveis pelo Sistema Único de Saúde (SUS) nos municípios sergipanos. Em Aracaju, algumas unidades disponibilizam os testes, como o Centro de Especialidades Médicas do bairro Siqueira Campos, localizado na Rua Bahia. Basta levar o cartão SUS.



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