O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) deixou claro que, se o Brasil responder com medidas de reciprocidade ao imposto extra de 25% já anunciado, Washington cogitará ampliar ainda mais a cobrança sobre produtos brasileiros.
O alerta consta do processo aberto com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana. Esse inquérito sustenta que possíveis barreiras impostas por Brasília ao mercado dos EUA serão decisivas para definir os próximos passos.
“A reação do governo brasileiro será determinante: a depender do conteúdo, as tarifas atuais poderão ser revistas para cima”, registra o documento.
No mesmo texto, o USTR sinaliza que uma flexibilização de regras consideradas nocivas ao comércio com os Estados Unidos poderia levar à reavaliação do tarifaço. Entretanto, caso o Brasil adote contramedidas — como as previstas na Lei da Reciprocidade Econômica —, autoridades americanas indicam que a sobretaxa de 25% poderá ser vista como insuficiente.
Paralelamente, corre uma segunda investigação, também amparada na Seção 301, envolvendo cerca de 60 economias. O foco é averiguar se esses países, Brasil incluído, dispõem de mecanismos eficazes para impedir a entrada de mercadorias produzidas com trabalho forçado ou infantil. A conclusão preliminar foi divulgada em junho de 2026 e considera que a ausência de fiscalização é “desarrazoada” e prejudica empresas dos EUA.
Como consequência, o USTR propôs um adicional de 12,5% sobre produtos dos países investigados. Alguns parceiros que apresentaram compromissos ou mantêm acordos preferenciais poderão receber tarifa menor, de 10%.
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Os dois processos são independentes e, juridicamente, podem se acumular. Se aplicados simultaneamente, parte das exportações brasileiras ficaria sujeita a sobretaxas de até 37,5%, além das alíquotas normais já cobradas na entrada no mercado americano. A lista de exceções ainda será publicada, mas itens agrícolas ou cobertos pela Seção 232 tendem a ter tratamento diferenciado.
Outro elemento de pressão vem da permanência do Brasil na Watch List do Relatório Especial 301, que monitora questões de propriedade intelectual. O documento cita pirataria, contrafação, lentidão na concessão de patentes — especialmente no setor farmacêutico — e dificuldades de aplicar sanções a produtos falsificados. Embora não gere tarifa automática, o relatório mantém o país sob vigilância constante.
A fase decisiva dos dois processos ocorre em julho de 2026. Nos próximos dias, o USTR deverá publicar a decisão final sobre o adicional de 12,5%. Já o desfecho do litígio bilateral envolvendo a taxa de 25% dependerá, segundo os americanos, da postura que o Brasil adotará.
Em Brasília, o governo estuda alternativas para proteger a balança comercial sem alimentar uma escalada tarifária. Técnicos ouvidos reservadamente apontam como prioridade a negociação direta com os EUA para buscar “atalhos diplomáticos” antes que as sobretaxas virem realidade.
Enquanto isso, empresas brasileiras de setores como siderurgia, têxteis, calçados, frutas e carnes acompanham o desenrolar dos fatos com apreensão. A Confederação Nacional da Indústria calcula que o impacto potencial pode passar de US$ 8 bilhões em exportações anuais, a depender do escopo final das listas tarifárias.
Nos bastidores, especialistas em comércio internacional avaliam que a atual administração americana mantém a estratégia de usar tarifas como instrumento de pressão para obter ajustes regulatórios em temas como etanol, Pix, meio ambiente e anticorrupção. Analistas lembram que negociações recentes com México e Índia seguiram roteiro semelhante.
Diante do prazo apertado, diplomatas brasileiros defendem intensificar o diálogo político de alto nível. O resultado dessas conversas definirá se a tensão comercial se transformará em nova rodada de tarifas ou se haverá espaço para uma saída negociada que evite custos extras às exportações nacionais.
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