A cena dos jogadores argentinos levantando uma faixa improvisada com a frase “As Malvinas são argentinas” logo após a vitória por 2 a 1 sobre a Inglaterra, na quarta-feira (15), percorreu o planeta e colocou de novo em destaque um dos impasses geopolíticos mais duradouros da América do Sul. O gesto ocorreu em plena semifinal da Copa do Mundo e, segundo o regulamento da Federação Internacional de Futebol (Fifa), manifestações políticas dentro de campo estão sujeitas a sanções disciplinares.
O episódio reavivou a discussão sobre a soberania do arquipélago localizado a cerca de 500 quilômetros da costa argentina e administrado pelo Reino Unido desde o século XIX. Para a ex-embaixadora argentina em Londres Alicia Castro, a imagem extrapolou o limite das quatro linhas.
“O ato dos jogadores, exibindo ao mundo uma bandeira nascida de um simples lençol de hotel, transformou-se em feito compartilhado por todo o povo argentino”, afirmou a diplomata.
Castro comparou a manifestação ao técnico egípcio Hossam Hassan, que empunhou a bandeira da Palestina sem sofrer punição porque a seleção palestina é filiada à Fifa. A diferença de tratamento, avaliam analistas, pode expor brechas nos critérios da entidade.
As Ilhas Malvinas — ou Falklands, na nomenclatura britânica — foram palco de uma guerra de 74 dias em 1982, que terminou com a derrota argentina e centenas de mortes, a maioria de soldados sul-americanos. Quatro anos mais tarde, a vitória da seleção de Diego Maradona sobre a Inglaterra em 1986 ganhou contornos de revanche simbólica, e a memória daquele conflito segue viva nos estádios, descreve o cientista político e torcedor do Boca Juniors Leandro Gabiati.
“Trata-se de uma agenda que unifica o país, acima de qualquer divergência ideológica”, destacou Gabiati.
Além de forte identificação popular, a causa causa desconforto no Reino Unido. Em artigo no jornal britânico The Guardian, o colunista Simon Jenkins sugeriu negociações diretas e classificou o modelo atual de administração como oneroso aos contribuintes.
O ex-secretário das Malvinas Guillermo Carmona considera que a faixa exibida pelos jogadores atuou como instrumento de soft power:
“Deveria despertar os diplomatas britânicos de sua inércia e lembrá-los da realidade geográfica inescapável”, avaliou.
A Fifa já abriu procedimento no Comitê Disciplinar Independente, que analisa relatórios da partida de quarta-feira. Em 2014, a Associação do Futebol Argentino (AFA) pagou multa de US$ 33 mil porque atletas mostraram faixa idêntica antes de amistoso contra a Eslovênia.
No campo político, o presidente Javier Milei apoiou publicamente a atitude dos jogadores.
“Compreendo os sentimentos que estão presentes em todos os argentinos. As Malvinas são argentinas e nós vamos recuperá-las pelas vias diplomáticas”, declarou em entrevista de rádio.
Enquanto aguarda a decisão da Fifa, a seleção se prepara para jogar o título mundial neste domingo (19) contra a Espanha, em jogo único que pode render a quarta estrela à albiceleste. Dentro ou fora do gramado, a disputa pelas Malvinas permanece tema sensível, misturando paixão, história e política em cada canto da arquibancada.
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