O Irã realiza, com alguns meses de atraso, o funeral de Estado do aiatolá Ali Khamenei e transforma o adeus ao líder que comandou o país por 37 anos em um amplo ato político. As cerimônias, iniciadas em Teerã, passam a funcionar como um palco para mostrar que, mesmo após meses de confronto armado com Estados Unidos e Israel, as engrenagens do poder iraniano seguem ativas, articuladas e com a sucessão encaminhada.
A morte de Khamenei, ocorrida no início da ofensiva militar conduzida pelos Estados Unidos e por Israel, alimentou expectativas em Washington e Tel Aviv de que a República Islâmica poderia ruir. Quatro meses depois, a liderança em Teerã aposta no simbolismo de um funeral prolongado para sinalizar o contrário: o Estado permanece de pé, suas instituições estão preservadas e uma nova geração de dirigentes conservadores assume posições de comando.
As exéquias começaram na capital iraniana e devem se estender por vários dias, percorrendo outras cidades do país e locais sagrados no Iraque. Milhões de participantes são aguardados, segundo autoridades locais, que mantêm um rigoroso esquema de segurança. A cerimônia reúne altas patentes civis, militares e religiosas, além de delegações estrangeiras vindas de nações aliadas no Oriente Médio, na Ásia e na África.
Analistas que acompanham a política iraniana observam que a guerra acabou fortalecendo o núcleo mais duro do poder. Com parte da antiga cúpula militar abatida no conflito, novos comandantes ligados à Guarda Revolucionária Islâmica ocupam posições estratégicas, conferindo ainda mais centralidade e coesão ao governo. Essa recomposição, avaliam os especialistas, diminui a margem para concessões ao Ocidente.
Além do componente religioso, o funeral carrega forte peso institucional. Ao organizar uma mobilização de tal magnitude em meio às consequências do conflito, o governo busca reforçar a narrativa de resistência e estancar qualquer percepção de fraqueza interna. A presença maciça de simpatizantes e a coreografia das homenagens funcionam, na prática, como um teste de lealdade à nova liderança.
Internamente, o processo sucessório avança. Clérigos e conselheiros mais jovens, muitos formados após a Revolução de 1979, despontam como herdeiros de um projeto ainda mais fechado e conservador. A expectativa é de que essa geração consolide práticas menos suscetíveis à pressão internacional, mantendo a política externa voltada para alianças regionais e a ênfase na autossuficiência econômica.
Apesar da demonstração de unidade, persistem desafios: a economia sofre com sanções, a população expressa descontentamento com a inflação e parte do território ainda sente os impactos diretos da guerra. Para observadores externos, entretanto, o cálculo imediato é claro: a estrutura criada há quase meio século atravessa seu maior teste e sobrevive com novo fôlego — mais jovem, mais centralizada e, segundo especialistas, ainda mais conservadora.
Siga o AjuNews e entre no nosso grupo de notícias de Aracaju.









