Conversas mantidas ao longo dos últimos dias por diplomatas, técnicos da equipe econômica e representantes do setor produtivo convergem em um diagnóstico: o diálogo comercial entre Brasil e Estados Unidos está travado. Apesar das manifestações oficiais que falam em cooperação, interlocutores com acesso às tratativas dizem que, hoje, não existe mesa bilateral ativa capaz de destravar um acordo em curto prazo.
Após ligações entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump no fim de 2025, surgiu a esperança de retomar entendimentos. Rodadas técnicas chegaram a abordar desmatamento ilegal, acesso ao mercado de etanol e mecanismos anticorrupção, mas esbarraram em exigências consideradas incompatíveis com compromissos firmados pelo Brasil no Mercosul e em outros pactos regionais. O resultado é a virtual paralisia das negociações.
Diante do impasse, o governo brasileiro revisa a estratégia. Em vez de apostar exclusivamente no contato direto com a Casa Branca, passou a intensificar um esforço de lobby junto ao setor privado americano. Entidades exportadoras e a ApexBrasil ampliam conversas com produtores de carne, soja, café e etanol, sobretudo em estados de maioria republicana, para evidenciar internamente o peso econômico das tarifas.
“Se o agricultor americano sentir o impacto, a Casa Branca pode rever sua posição”, resumiu um interlocutor envolvido nas articulações.
Até agora, contudo, os resultados são tímidos. Houve cartas públicas de associações empresariais nos Estados Unidos, mas nada que alterasse a postura de Washington.
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No Ministério da Fazenda, a ordem é cautela. Técnicos confirmam que o pacote Brasil Soberano 2 deverá priorizar linhas de crédito do BNDES às empresas afetadas e reservar cerca de R$ 130 milhões para que a ApexBrasil diversifique mercados. Medidas mais robustas, como grandes programas de incentivo ou desonerações amplas, perderam espaço devido às restrições fiscais.
“É um pacote de amortecimento, não uma solução estrutural”, avaliou um técnico que acompanha as discussões.
Nos Estados Unidos, fontes ligadas à representação comercial (USTR) sustentam que o Brasil segue como caso estratégico na política de recomposição de alavancagem comercial da administração Trump. As tarifas são vistas como principal instrumento para forçar concessões em condições favoráveis a Washington. Essas mesmas fontes reconhecem exceções para itens estratégicos — carne bovina, café e componentes aeronáuticos —, mas afirmam que o governo brasileiro ainda não apresentou sinais de flexibilização nos pontos considerados essenciais.
Em Brasília, alguns integrantes do governo veem componente político na postura americana, citando a aproximação do Brasil com China e BRICS e a repercussão internacional do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Interlocutores nos EUA rejeitam a leitura e reiteram o foco econômico: reduzir desequilíbrios, ampliar acesso a mercados e corrigir distorções competitivas. Mesmo assim, admitem que o endurecimento reforça a imagem de firmeza que Trump deseja transmitir à base eleitoral em ano de campanha.
Empresas brasileiras calculam perdas potenciais que podem superar US$ 7 bilhões e já articulam recursos em fóruns internacionais. Enquanto buscam canais paralelos de negociação, ouvem mensagem semelhante: antes de qualquer recuo, a Casa Branca quer resultados concretos.
O retrato, portanto, é de um xadrez lento e desigual. O Brasil aposta na abertura de novos mercados, no lobby privado e em medidas internas para amortecer impactos, enquanto os Estados Unidos mantêm as tarifas como ferramenta de pressão. Entre diplomatas, empresários e técnicos dos dois lados, a palavra de ordem continua sendo cautela, à espera de que os efeitos econômicos das tarifas criem, paradoxalmente, condições para uma eventual reaproximação nas próximas semanas.
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