A queda da seleção do Irã na Copa do Mundo de 2026 transformou-se em um dos temas mais comentados do torneio. Mesmo invicta, a equipe terminou como a nona melhor terceira colocada e não avançou, decisão que gerou forte reação de jogadores, comissão técnica e veículos de imprensa do país.
O capitão Mehdi Taremi foi o rosto da indignação. Logo após o empate sem gols com o Egito, resultado que selou a eliminação, ele desabafou diante das câmeras.
“Esta é uma Copa do Mundo desastrosa. Como jogadores profissionais, não podemos disputar uma competição nessas condições. Não está certo nem é justo. A FIFA prometeu resolver os problemas, mas não fez nada. Eles fizeram de tudo para nos eliminar.”
Segundo o atacante, a delegação encarou uma maratona de controles migratórios, não conseguiu autorização para treinar em território norte-americano e precisou deslocar-se repetidamente até Tijuana, no México, para manter a preparação. Taremi sugeriu que essas barreiras foram criadas para minar o desempenho iraniano.
O técnico Amir Ghalenoei adotou o mesmo tom. Em entrevista coletiva, classificou seu elenco como “a seleção mais oprimida de toda a Copa” e revelou que parte da comissão ficou de fora por problemas de visto. Ainda assim, ressaltou que o grupo se manteve unido durante os 270 minutos de futebol que rendeu três empates consecutivos.
“Fatores externos pesaram mais do que a bola rolando”, resumiu Ghalenoei.
A imprensa do Irã também subiu o tom. Jornais e agências como IRNA, Tasnim e Fars estamparam manchetes questionando o empate entre Áustria e Argélia, resultado que favoreceu ambas as seleções na classificação do grupo. As publicações pediram uma investigação oficial, comparando o episódio ao “Jogo da Vergonha” de 1982, quando Alemanha Ocidental e Áustria foram acusadas de combinar o resultado para avançar de fase.
Nos editoriais, repórteres apontaram “tratamento discriminatório” em solo norte-americano, incluindo restrições de viagem para torcedores iranianos, logística limitada e promessas não cumpridas de infraestrutura de treinamento. Para eles, a eliminação de uma equipe que não sofreu derrotas simboliza um revés imposto mais por políticas do que por desempenho esportivo.
Especialistas lembram que o formato atual da Copa premia oito dos 12 terceiros colocados da fase de grupos. O Irã, com três pontos, ficou atrás no critério de gols marcados, mesmo sem ter sofrido derrotas. Dirigentes locais argumentam que fatores burocráticos, como vistos e deslocamentos forçados, afetaram diretamente a condição física dos atletas e, por consequência, o poder ofensivo da equipe.
Nas redes sociais, torcedores e ex-jogadores repercutiram o tema ao longo do dia. Hashtags em persa e em inglês pedindo “fair play” à FIFA ganharam força, enquanto analistas internacionais divergem sobre a existência ou não de favorecimento. Alguns atribuem a saída precoce ao sistema de disputa, considerado implacável com quem joga pelo empate; outros concordam que a delegação de Teerã enfrentou obstáculos incomuns.
Sem novos compromissos oficiais agendados, a Federação Iraniana estuda enviar um dossiê detalhando cada incidente, desde o sorteio que colocou a equipe em solo norte-americano até as limitações de treinamento. O documento, segundo dirigentes, servirá para “proteger futuras gerações de atletas” de situações semelhantes.
A história, portanto, não se encerra com o apito final em Kansas City. Mais do que o resultado de campo, o episódio levanta um debate sobre até que ponto questões geopolíticas podem influenciar um Mundial de futebol, torneio que, em teoria, deveria ser regido apenas pela bola – e pelo talento dos jogadores.
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