Teerã vive, nesta sexta-feira (03/07), o primeiro de três dias de homenagens públicas ao aiatolá Ali Khamenei, líder supremo que morreu há quatro meses durante ataques atribuídos a forças norte-americanas e israelenses. As autoridades projetam a presença de até 20 milhões de pessoas somente na capital, transformada em ponto de peregrinação nacional e internacional.
A cerimônia, que o governo descreve como demonstração de unidade, começa oficialmente neste sábado (04/07) no complexo da Grande Mosalla, onde o corpo do religioso ficará exposto ininterruptamente até segunda-feira (06/07). O caixão, coberto pela bandeira iraniana, está cercado por retratos gigantes do aiatolá, faixas pretas de luto e bandeiras vermelhas — símbolo de martírio e vingança na tradição xiita.
“As pessoas virão de todo o Irã. Vai ter muita gente”, comenta em voz baixa Houssein Moghadassi, funcionário de 43 anos que auxilia nos preparativos e espera filas formadas ainda na noite de hoje.
No entorno, um parque abriga mais de 400 barracas do Crescente Vermelho para acolher peregrinos, enquanto famílias da capital oferecem hospedagem solidária. A professora Ezzat Shoaï, 61 anos, reforça o clima de mobilização popular:
“Preparamos nossas casas em Teerã para receber quem vem de fora. Se Deus quiser, depois de receber nossos convidados, iremos juntos nos despedir do nosso querido líder”.
Entre as autoridades presentes, o presidente Masoud Pezeshkian comparece ao lado do presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf. A participação de Mojtaba Khamenei, filho e sucessor do aiatolá, continua incerta: ferido nos mesmos ataques, ele permanece longe dos holofotes desde março, comunicando-se apenas por mensagens escritas.
O general Ahmad Vahidi, novo comandante da Guarda Revolucionária, surge em público pela primeira vez desde o início da guerra. Ele coloca a mão sobre o caixão e reza, enquanto operários concluem instalações sob temperaturas elevadas.
Delegações de quase 30 países desembarcam para o funeral de Estado, marcado para segunda-feira. Estão confirmados o ex-presidente russo Dmitri Medvedev, o primeiro-ministro paquistanês Shebaz Sharif e o representante chinês He Wei. Na lista de convidados não há chefes de governo europeus.
O cortejo atravessa Teerã na segunda e segue, na terça, para a cidade sagrada de Qom. Em 09/07, o líder será sepultado em Meshed, região nordeste onde nasceu. Antes, o caixão faz parada no vizinho Iraque, país de maioria xiita. As autoridades esperam que a mobilização supere a de 1989, quando 10 milhões participaram do funeral do fundador da República Islâmica, aiatolá Ruhollah Khomeini.
A cidade opera sob rígidas medidas de segurança: o aeroporto internacional funciona parcialmente hoje e tem fechamento total previsto para segunda, declarada feriado nacional. Comércio, bancos e escritórios reduzem as atividades, transformando a metrópole em fortaleza durante a cerimônia.
Além de Khamenei, serão velados parentes que morreram no mesmo ataque — entre eles uma filha, um genro, uma nora e uma neta. Imagens do líder com o punho erguido, gesto adotado como símbolo de resistência, dominam painéis eletrônicos, faixas de rua e telões instalados por toda capital. Uma faixa gigante resume o sentimento oficial: “Teu nome permanecerá eterno nesta terra de ouro”.
O governo pretende usar a comoção para reforçar a narrativa de resiliência após meses de conflito e crises internas. Analistas apontam que o evento testa, ao mesmo tempo, a capacidade de organização estatal e o grau de apoio popular à nova liderança religiosa e política do país.
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