O governo de Israel deu um passo inédito HOJE, 28/06, ao aprovar por unanimidade, em reunião ministerial, o reconhecimento oficial do genocídio armênio. A decisão, celebrada pelo Ministério das Relações Exteriores como “histórica”, encerra décadas de cautela diplomática motivada pelo receio de melindrar a Turquia ― antigo aliado estratégico de Jerusalém.
O texto aprovado ainda precisa ser analisado pelo Knesset, o Parlamento israelense, para ganhar força de lei. Até lá, a chancelaria já trata o gesto como sinal de mudança de postura em meio ao esfriamento das relações com Ancara, cada vez mais crítica da campanha militar israelense na Faixa de Gaza.
“Nunca é tarde para fazer o que é certo. Reconhecer o genocídio é um dever moral e histórico”, afirmou o ministro Gideon Saar, autor da proposta aprovada HOJE.
A Turquia reagiu com dureza, classificando o reconhecimento como medida “estritamente política” destinada a “encobrir crimes” atribuídos a Israel em Gaza. Em nota, o Ministério das Relações Exteriores turco acusou o governo israelense de tentar desviar o foco das acusações que enfrenta na Corte Internacional de Justiça.
“Quem persegue o povo palestino diante dos olhos do mundo tenta ocultar seus próprios atos ao politizar os acontecimentos de 1915”, diz o comunicado divulgado por Ancara.
O massacre de armênios pelo Império Otomano, entre 1915 e 1917, é reconhecido por estimativas que variam de 600 mil a 1,5 milhão de mortos. Nos últimos 60 anos, mais de 30 países adotaram formalmente o termo genocídio para caracterizar a tragédia, a começar pelo Uruguai, em 1965. Entre as potências que respaldam esse entendimento estão Estados Unidos, França e Alemanha, além de nações latino-americanas como Argentina e Chile.
No Oriente Médio, porém, o tema segue sensível. Israel, que historicamente cultivou laços militares com a Turquia, vinha evitando a palavra “genocídio” para não ferir esse relacionamento. A cooperação começou a se desgastar em 2010, após o incidente do navio Mavi Marmara, e se deteriorou ainda mais com os frequentes embates verbais entre o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.
Erdogan compara a ofensiva israelense em Gaza às práticas do regime nazista, enquanto Netanyahu costuma rotular o líder turco de “ditador antissemita” que “oprime os curdos”. As trocas de acusações ganharam novo capítulo quando, em junho de 2024, a Armênia reconheceu oficialmente o Estado da Palestina. Na ocasião, o Itamaraty israelense convocou o embaixador armênio para “severa reprimenda”, marcando o pior momento nas relações bilaterais.
Agora, com o reconhecimento do genocídio armênio, Israel aprofunda a fissura diplomática não só com a Turquia, mas também com outros parceiros que evitam confrontar Ancara sobre o episódio de 1915. Analistas avaliam que a decisão pode reforçar alianças de Jerusalém com países ocidentais sensíveis à causa armênia, ao mesmo tempo em que endurece o discurso contra quem acusa Israel de violar o direito internacional em Gaza.
Nos próximos dias, a expectativa recai sobre o Knesset. Caso o Parlamento confirme a posição do gabinete, Israel se juntará formalmente ao grupo de nações que reconhecem o genocídio armênio. Diplomaticamente, será um gesto simbólico de peso para Erevan, que já enfrenta litígios com o Azerbaijão e busca respaldo global. Para Ancara, contudo, o movimento representará mais um entrave no esforço de reaproximação regional.
Enquanto a votação parlamentar não ocorre, permanece a incógnita sobre eventuais represálias econômicas ou políticas turcas. Fontes diplomáticas em Jerusalém afirmam que a chancelaria estudará cenários de possíveis sanções, mas, por ora, mantém em aberto canais de diálogo para evitar a escalada.
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