O presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou a 68ª Cúpula de Presidentes do Mercosul, realizada em 30/06, para reforçar a soberania dos países sul-americanos em meio às recentes pressões comerciais do governo norte-americano de Donald Trump. Falando aos chefes de Estado do bloco, Lula afirmou que a região precisa preservar autonomia e diversificar parcerias para enfrentar o cenário mundial de tensões geopolíticas e oscilações nos preços de energia e alimentos.
“Ninguém é dono do mundo e ninguém é dono da América do Sul. Nenhum país do Mercosul ganhará mais liberdade de ação por meio de alinhamentos automáticos ou escolhas excludentes”, declarou.
O discurso manteve o tom de crítica às barreiras tarifárias que Washington estuda restabelecer sobre produtos brasileiros — alíquota que pode chegar a 25%. Lula citou, ainda, a preocupação com iniciativas que classificam organizações criminosas da região como terroristas, o que, segundo ele, amplia a margem de intervenção externa.
Para Lula, o Mercosul funciona como escudo econômico e diplomático. O presidente comemorou avanços em diálogos com Canadá, Índia e Vietnã, além do acordo fechado com a União Europeia. Ele revelou que as negociações com o Japão deram “passo importante” e disse ter interesse em aproximar o bloco da China.
Entre os anúncios concretos, destacou-se o aumento da contribuição brasileira ao Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem). O Brasil, já principal financiador, pretende elevar o repasse para US$ 100 milhões anuais durante os próximos dez anos, totalizando US$ 1 bilhão no período. O recurso financia obras de infraestrutura em transporte, energia e conectividade nos quatro países membros — Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.
Lula alertou para riscos à democracia na América do Sul e citou episódios recentes envolvendo a disseminação de desinformação e a tentativa de ruptura institucional no Brasil.
“No Brasil, os extremistas planejaram um golpe de Estado. Redes de desinformação continuam desvirtuando o debate público e tentando enfraquecer a confiança nas instituições”, pontuou.
Ao fim da intervenção, o presidente desviou do texto preparado para mencionar a sucessão de 2026. Ele recordou indicadores sociais e econômicos de seus mandatos anteriores e justificou a pretensão de disputar novo mandato para, em suas palavras, “garantir que o Brasil mantenha-se como um país democrático”. Sem citar o adversário Flávio Bolsonaro, Lula alegou que “irresponsáveis” não podem conduzir um país de 215 milhões de habitantes.
A fala foi recebida com aplausos moderados. Nos bastidores, diplomatas avaliaram que o compromisso financeiro com o Focem sinaliza disposição brasileira em sustentar o bloco diante da crescente pressão externa e das incertezas eleitorais internas. A expectativa agora recai sobre a formalização dos novos aportes e o desfecho das negociações comerciais anunciadas.
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