Tecnologia e ações socioambientais garantiram a proteção de 14 mil hectares de vegetação nativa em Caracaraí (RR). Projeto de empresa paulista gera alternativa produtiva para áreas sob pressão e busca créditos de carbono.
Em Caracaraí (RR), um modelo de conservação que combinou tecnologia e ações socioambientais garantiu a preservação de 14 mil hectares e buscou competitividade no mercado de carbono. A iniciativa foi conduzida por uma empresa paulista de soluções para descarbonização e surgiu como alternativa produtiva para áreas com vegetação nativa sob pressão de desmatamento legal.
O projeto aconteceu em uma área do bioma Amazônia onde a reserva legal, em condições normais, corresponde a 80% da propriedade. Depois da conclusão do zoneamento ecológico-econômico de Roraima em 2022, o proprietário passou a ter direito de desmatar metade da área para plantio de soja, segundo a explicação sobre o caso.
“O proprietário comprou essa área logo depois que Roraima passou por uma redução da reserva legal.”
Com a possibilidade de supressão da vegetação, a empresa apresentou ao produtor um modelo que incluía monitoramento por tecnologia, prevenção de incêndios, programa socioambiental voltado a comunidades coletoras de castanha-do-Pará e o processo de certificação dos estoques de carbono existentes. Após diálogo e avaliação das opções, o proprietário aprovou o projeto e formalizou a cessão do direito real de superfície por 40 anos, período do contrato para comercialização dos estoques de carbono.
“Foi quando a gente entendeu que tinha que entrar no mercado de conservação para fazer diferente.”
Houve ainda trabalho de segurança jurídica para remontagem da cadeia dominial e evitar conflitos sobre direito de posse. O projeto buscou dar credibilidade aos investidores em um momento de colapso do mercado de conservação entre 2021 e 2023, associado a números de mitigação superestimados e comercialização sobre áreas sobrepostas a terras públicas.
Como parte da infraestrutura de proteção, a área recebeu uma torre de 60 metros equipada com câmera e programa de inteligência artificial capaz de identificar focos de incêndio e sinalizar a equipe em campo. Segundo a operação, a câmera realiza um giro de 360 graus em três minutos e gera relatórios que indicam com precisão onde estão os focos, permitindo ação rápida da brigada local. A equipe local passou por treinamento e era composta por 20 pessoas; brigadas em assentamentos vizinhos também receberam capacitação.
“O principal risco, que a gente tem mais dificuldade de mitigar, é o incêndio. Então, a gente investiu bastante na infraestrutura de combate a incêndio.”
A preservação permitiu manter o extrativismo de subsistência de cerca de 36 famílias que coletam castanha-do-Pará nas áreas vizinhas. A parceria levou à capacitação e ao apoio para constituir a Associação Agroextrativista do Município de Caracaraí (Agrocar), favorecendo a pesagem e a venda coletiva da safra, com objetivo de obter preços mais vantajosos em comparação à venda a atravessadores.
“Este ano, eu achei que melhorou bastante, na comparação com os outros anos. Eu achei mais organizado porque, antes, a gente vendia direto para o atravessador. Trabalhando junto, a gente já pode pensar em fazer uma venda melhor.”
O modelo em Caracaraí combina conservação ambiental, proteção contra incêndios, regularização jurídica e apoio às comunidades extrativistas como caminho para inserir estoques de carbono no mercado com maior confiabilidade.
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