Um balanço preliminar do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) revelou que 17% dos policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) destacados para a Operação Contenção, realizada em outubro de 2025, retiraram as câmeras corporais durante o confronto. O estudo, que avaliou o material de 51 agentes, integra a investigação conduzida pelo Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp).
Além dos casos de retirada, os peritos identificaram indícios de obstrução deliberada das imagens em 7,8% dos registros. Em contrapartida, 82% das gravações analisadas até o momento apontam uso adequado do equipamento, sinalizando que a maior parte do efetivo respeitou o protocolo de transparência estabelecido para operações de alto risco.
Para alcançar esses números, o Gaesp revisou horas de vídeo e colheu depoimentos de mais de 200 policiais que relataram consumo de munição no dia da ação. Segundo os promotores, esses relatos são essenciais para reconstituir a cadeia de eventos e entender de que forma o emprego das câmeras influenciou a dinâmica dos confrontos.
A Operação Contenção foi deflagrada nos Complexos da Penha e do Alemão, na capital fluminense, com o objetivo de desarticular células do Comando Vermelho. Ao término da ofensiva, mais de 120 pessoas morreram, entre elas cinco agentes de segurança, fato que motivou pedidos de investigação aprofundada por parte de órgãos de controle e organizações da sociedade civil.
Em abril deste ano, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, concedeu prazo de 90 dias para que a Polícia Federal (PF) realizasse perícia detalhada nas imagens captadas pelos dispositivos. O objetivo é acelerar a checagem de possíveis irregularidades e preservar a cadeia de custódia do material.
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Até agora, o MPRJ formalizou oito denúncias que envolvem 27 policiais militares. As acusações incluem apropriação indevida de armamento, furto de peças automotivas, invasão de domicílios, constrangimento de moradores, subtração de pertences e tentativas de desligamento ou bloqueio das câmeras corporais.
Os promotores também ouviram pessoas presas durante a operação, buscando uma versão complementar aos relatos oficiais. Essa etapa, de acordo com o Gaesp, atende à necessidade de contrastar depoimentos e conferir amplitude à apuração sobre letalidade e possíveis abusos de autoridade.
Entre as medidas iniciais adotadas estão a instauração de Procedimento Investigatório Criminal autônomo, o monitoramento em tempo real das ações policiais e a ativação dos protocolos previstos na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, que trata da atuação das forças de segurança em comunidades.
O MPRJ informa ter realizado busca ativa por familiares das vítimas fatais, a fim de recolher testemunhos, cadastrar interessados e garantir acompanhamento institucional sobre o avanço das investigações. A iniciativa pretende evitar a revitimização e oferecer transparência aos parentes sobre o andamento dos processos.
No campo preventivo, uma Recomendação expedida em dezembro de 2025 aos titulares da Segurança Pública, Polícia Civil e Polícia Militar propôs a criação de um Protocolo Conjunto para reduzir riscos e conter a letalidade em futuras operações. Em março de 2026, nova orientação reforçou a necessidade de aprimorar planejamento, execução e monitoramento do uso de câmeras operacionais portáteis, ampliando a eficácia da tecnologia como instrumento de controle externo.
Embora o inquérito siga sem prazo para conclusão, promotores ressaltam que a análise sistemática das imagens e o cruzamento de dados balísticos devem lançar luz sobre condutas incompatíveis com a lei, ao mesmo tempo em que reconhecem as equipes que atuaram dentro dos parâmetros legais.
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