Durante quatro décadas, um renomado professor de oratória percorreu auditórios de todo o país repetindo uma anedota que, acreditava ele, ilustrava como ninguém o poder da improvisação. A estrela da narrativa era o jornalista e político Carlos Lacerda, apresentado como o paraninfo que, diante de folhas em branco, teria fingido ler um discurso escrito para enganar a plateia. A história encantava e servia como exemplo perfeito de presença de espírito.
No entanto, a própria dinâmica que ele tanto estudou — a tendência de cada contação alterar o enredo original — acabou expondo a fragilidade do episódio. Inquieto com divergências que ouvira aqui e ali, o palestrante decidiu investigar minuciosamente a origem daquele feito improvável.
“Nem sei bem o motivo, mas desconfiei. Em tempo de me corrigir”, confessou o orador, ao narrar a sua descoberta.
A primeira pista surgiu quando diversas fontes acadêmicas não confirmaram o envolvimento de Lacerda. Em seguida, pesquisas mais aprofundadas apontaram para outro protagonista de peso na literatura brasileira: Coelho Neto, o “Príncipe dos Prosadores”. Segundo essa segunda versão, o escritor, também convocado como paraninfo, teria simulado a leitura ao perceber que não havia escrito sequer uma linha.
O palestrante, fascinado pela possibilidade, substituiu o nome de Lacerda pelo de Coelho Neto e continuou levando a história aos palcos. Ainda assim, algo permanecia fora do lugar. Determinado a tirar a dúvida de cena, ele recorreu ao próprio acervo particular, repleto de obras raras sobre retórica. Em meio a páginas amareladas, encontrou um livro publicado em 1942 pelo filho do escritor, Paulo Coelho Neto. Lá estava o relato definitivo.
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De acordo com o texto, o episódio ocorreu num domingo de Fla-Flu. Coelho Neto assistiu à vitória do Fluminense e, empolgado, adiou a redação de uma conferência marcada para as 21h em um grande teatro do Rio de Janeiro. Quando percebeu que restavam apenas duas horas e meia, foi surpreendido por um amigo que apareceu para comemorar, portando fogos de artifício. O tempo escorreu, e o autor partiu sem discurso escrito. Em vez de folhas vazias, carregou páginas de um romance em revisão e, no palco, fingiu lê-las enquanto improvisava uma fala de 50 minutos, recebendo aplausos calorosos.
“O observador mais atento não perceberia o disfarce”, registrou o livro do filho do escritor.
O palestrante concluiu que nem Lacerda nem a cerimônia de formatura faziam parte da trama original. A façanha pertencia exclusivamente a Coelho Neto, então conferencista – prova de que a imaginação humana, ao recontar, pode remodelar fatos com incrível criatividade.
No encerramento de suas apresentações, o professor agora compartilha as três versões que o acompanharam ao longo dos anos e provoca a plateia: qual narrativa você escolheria? A pergunta permanece, mas a autoria, enfim, foi restabelecida.
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