Conversar em um restaurante cheio, acompanhar o papo em uma reunião de família ou simplesmente assistir à TV sem aumentar demais o volume têm se tornado tarefas desafiadoras para muita gente. O alerta vem de especialistas que observam um crescimento no número de pacientes que relatam ouvir o som, mas não compreender claramente as palavras, especialmente quando há ruído de fundo.
O fenômeno, conhecido como perda auditiva oculta, não aparece nos exames de audiometria tradicionais. Isso porque o teste mede a capacidade de o som chegar ao ouvido, mas não avalia com a mesma precisão a “fiação” que leva a informação ao cérebro. Pequenas lesões nas sinapses do nervo auditivo fazem o sinal chegar “picotado”, exigindo mais esforço cognitivo para decodificar a fala.
“O paciente sai do consultório com o laudo de audição normal e, mesmo assim, não entende o que as pessoas dizem. A frustração é grande e faz muita gente acreditar que o problema é imaginário”, explica o otorrinolaringologista Dr. Andy Vicente (CRM 92.351 / RQE 419.730).
Uma das principais causas apontadas pelos médicos é o uso prolongado de fones de ouvido em volume elevado. A chamada “geração fone” passa horas conectada, muitas vezes acima dos níveis seguros, submetendo as células ciliadas do ouvido interno a um estresse constante. O resultado é fadiga auditiva, irritabilidade e dificuldade de interação social.
Até pequenos hábitos, como aumentar o volume para abafar barulhos externos, podem acelerar o desgaste. Para quem depende de playlists ou podcasts durante o trabalho, a recomendação é simples: seguir a regra 60/60 — volume máximo de 60% e pausas de 5 a 10 minutos a cada 60 minutos de uso.
“O ouvido não foi projetado para receber estímulos intensos sem descanso. Quando respeitamos os intervalos, damos tempo para as células se recuperarem e reduzimos o risco de lesões permanentes”, reforça o especialista.
Outras estratégias incluem optar por fones que isolem o som ambiente, diminuindo a necessidade de volume alto, e manter consultas periódicas com o otorrino, mesmo sem queixas evidentes. A perda auditiva evolui de forma silenciosa e, diferentemente de outros tecidos, os danos profundos na audição são irreversíveis.
Sentir cansaço mental no fim do dia também pode ter relação com o esforço extra para compreender as conversas. Quando o cérebro precisa decifrar um sinal sonoro imperfeito, gasta o dobro de energia para preencher lacunas, impactando concentração e humor. Se você se vê pedindo para amigos repetirem frases ou evita ambientes ruidosos, é hora de buscar avaliação profissional.
Proteger a audição é um investimento para o futuro. Não se trata apenas de manter a capacidade de escutar música ou acompanhar séries, mas de garantir participação plena em reuniões, aulas e momentos de convívio. Adotar volume moderado, fazer pausas e estar atento aos primeiros sinais de dificuldade são medidas simples que preservam a qualidade de vida.
A mensagem final dos especialistas é clara: cuide dos ouvidos com o mesmo zelo dedicado à visão ou à saúde do coração. A vida cotidiana é cheia de sons que elevam memórias e emoções. Ouvi-los sem esforço é mais que conforto — é parte essencial da experiência humana.
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