Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiram reforçar o diálogo com o eleitorado feminino depois da crise aberta entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A leitura dentro do Palácio do Planalto é de que o episódio fragilizou a direita junto a um segmento considerado decisivo nas eleições de outubro, abrindo margem para que o Partido dos Trabalhadores avance sobre eleitoras moderadas e conservadoras.
A movimentação começou quando veio à tona um vídeo em que Michelle relata ter sido “humilhada” e “desrespeitada” pelo filho do ex-presidente. O conteúdo circulou em redes sociais e dominou o noticiário político, expondo fissuras na articulação do PL para 2026.
“Mulher vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras. As casadas costumam acompanhar o marido.”
A declaração acima, feita pelo jornalista Paulo Figueiredo durante um podcast, potencializou a repercussão negativa. Ele ainda minimizou o papel político de Michelle, sugerindo que a popularidade da ex-primeira-dama decorre do fato de “nunca ter aberto a boca” para tratar de temas públicos.
No governo, a avaliação é de que comentários como esses reforçam um estigma de misoginia atribuído ao bolsonarismo e podem afastar eleitoras que transitam entre campos ideológicos. Pesquisas internas mostram o PT numericamente à frente entre mulheres, mas estrategistas veem espaço para ampliar a diferença ao enfatizar respeito, proteção e solidariedade feminina.
Duas figuras de destaque na base aliada já colocaram a estratégia em prática. A ex-ministra Simone Tebet manifestou apoio público a Michelle Bolsonaro, argumentando que a violência contra mulheres independe de “cor, classe social, raça nem ideologia”.
“Nenhuma mulher deve ser atacada, desqualificada ou constrangida por ser mulher”, afirmou Marina Silva ao defender a senadora Damares Alves, também alvo de ofensas.
Ao mirar eleitoras conservadoras, o PT pretende dissociar o debate da polarização tradicional. Integrantes do núcleo de campanha ressaltam que programas sociais, geração de emprego e políticas de combate à violência doméstica continuarão no centro das peças publicitárias, mas agora devem vir acompanhados de mensagens de empatia e união entre mulheres.
Interlocutores palacianos relatam que a primeira-dama Janja Lula da Silva, a ministra Cida Gonçalves (Mulheres) e parlamentares da bancada feminina serão escaladas para lives, agendas de rua e encontros regionais. A ordem é mostrar que divergências políticas não justificam ataques de gênero e que o governo se coloca ao lado de quem sofre agressões desse tipo.
No campo adversário, aliados de Flávio e Michelle tentam estancar a crise. Parlamentares do PL reforçaram publicamente a importância da pauta feminina, e o próprio senador articulou reuniões com líderes evangélicas — base tradicional de apoio de Michelle — para conter danos. Ainda assim, dirigentes petistas acreditam que o estrago já se refletirá nas próximas sondagens.
Com a campanha oficialmente liberada a partir de 16 de agosto, o PT calcula que consolidar a vantagem entre mulheres pode ser decisivo em estados-chave do Sudeste e do Sul, onde o eleitorado feminino representa mais de 52% do total. Até lá, a diretriz interna é clara: aproveitar cada deslize verbal adversário para reforçar a mensagem de respeito e equidade de gênero, sem abrir mão de um tom propositivo.
Se dará certo ou não, apenas as urnas dirão. Por ora, as cúpulas partidárias observam atentamente como a disputa por esse eleitorado se intensifica, transformando cada declaração pública em termômetro de aceitação ou rejeição junto a milhões de brasileiras.
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