Neste domingo (28), a Venezuela vive uma corrida contra o tempo quatro dias depois dos terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 que sacudiram o país na quarta-feira (24). As equipes de resgate intensificam os trabalhos em La Guaira, a 40 quilômetros de Caracas, uma das áreas mais devastadas. Montanhas de concreto, vigas retorcidas e poeira fina compõem o cenário na cidade litorânea, comparada por moradores a uma zona de guerra.
De acordo com o balanço oficial mais recente, quase 1.500 pessoas morreram e mais de 50 mil continuam desaparecidas. A Organização das Nações Unidas calcula que quase sete milhões de venezuelanos foram afetados, com prejuízos que chegam a US$ 6,7 bilhões — algo em torno de R$ 34,6 bilhões, o equivalente a 6% do PIB do país.
Mesmo com o relógio avançando, os socorristas não abandonam a esperança. No sábado (27), 33 pessoas foram retiradas com vida dos escombros, entre elas um menino de 11 anos encontrado em Caraballeda. A presidente interina, Delcy Rodríguez, classificou cada resgate como “um fio de esperança” para a nação.
“Após três dias, o padrão é que as pessoas não estejam mais vivas, mas, graças a Deus, ainda podemos encontrar sinais vitais”, relatou um socorrista salvadorenho que pediu anonimato.
Enquanto profissionais de 24 países — somando 2.700 especialistas, 86 unidades com cães farejadores e 521 toneladas de suprimentos — reforçam as buscas, habitantes reclamam da lentidão na resposta oficial. Em La Guaira, familiares de desaparecidos chegaram a bloquear uma rodovia para exigir máquinas, geradores e perfuradores.
“Se hoje não vier ninguém aqui, vamos fazer uma revolução; precisamos de tudo”, protestou Marlon Ochoa, que procura a mãe, a esposa e o filho sob os escombros do antigo prédio onde viviam.
O chefe da ajuda humanitária da ONU, Tom Fletcher, alertou que o número de mortes pode subir. A organização também aponta graves riscos sanitários, já que hospitais, já fragilizados pela crise econômica, enfrentam falta de energia, água potável e insumos básicos.
Para aliviar a pressão, o aeroporto internacional que serve Caracas reabriu parcialmente no sábado, recebendo voos de carga com donativos. Um navio militar dos Estados Unidos, o USS Fort Lauderdale, permanece ancorado na costa para apoiar operações aéreas de resgate. Washington liberou US$ 150 milhões (cerca de R$ 775 milhões) em ajuda e deslocou helicópteros, aviões-carga e dois navios de guerra.
Embora o fluxo de voluntários seja intenso, a entrada em zonas críticas só é permitida com autorização militar. A medida, anunciada na sexta-feira (26), provocou filas intermináveis de bombeiros, paramédicos e civis.
“É preciso ter autorização para salvar vidas, imagina só”, queixou-se o socorrista Carlos Itriago, de 27 anos.
No Vaticano, o papa Leão XIV manifestou solidariedade e agradeceu “a todos aqueles que trabalham com generosidade nas tarefas de busca e assistência”. A lembrança de outra tragédia — os deslizamentos de 1999 que mataram mais de 10 mil pessoas em La Guaira — paira sobre a população, que teme chuvas nos próximos dias.
Com ruas tomadas por destroços, falta de eletricidade em vários bairros e relatos de saques pontuais, a prioridade segue sendo localizar sobreviventes. Cada vida preservada alivia, ainda que por instantes, o luto coletivo que se espalha pelo país.
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