O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) concluiu, em documento fechado em 2026, que uma cadeia de falhas humanas, organizacionais e de supervisão contribuiu para a queda do ATR 72-500 da Voepass sobre um condomínio em Vinhedo (SP) em agosto de 2024. O acidente do voo que partira de Cascavel (PR) em direção ao Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) provocou a morte de 62 pessoas — 58 passageiros e quatro tripulantes — e destruiu a aeronave após uma explosão no impacto. Nenhum morador em solo ficou ferido.
Segundo o relatório, os pilotos permaneceram por longo período engajados em conversas sem relação com a operação, prática que diminuiu a consciência situacional sobre as condições meteorológicas e sobre os alertas emitidos na cabine. O Cenipa identificou ainda que um dos comandantes enfrentava problemas pessoais capazes de afetar seu estado emocional durante o voo, reduzindo a atenção aos procedimentos.
“A tripulação demonstrou coordenação ineficiente diante da emergência, com descumprimento de checklist e demora em reconhecer a gravidade da situação provocada pelo acúmulo de gelo”, descreveu o documento.
A investigação apontou fragilidades na cultura de segurança da Voepass. Conforme o órgão, desvios operacionais tornaram-se comportamentos normalizados, e alertas recorrentes da aeronave passaram a ser tratados como rotina, o que reduziu a percepção de risco. Problemas previamente registrados no sistema de degelo do ATR 72-500 não constavam nos diários de bordo, impedindo que setores de manutenção realizassem correções, substituíssem a aeronave ou revisassem a rota, apesar da previsão de gelo severo na altitude planejada.
O Cenipa também analisou o sistema de avisos do modelo. O alerta relacionado à degradação das condições de voo ofereceu curto intervalo para reação da tripulação. Para os investigadores, um aviso de prioridade mais alta poderia ter levado os pilotos a adotar manobras de descida imediata antes da perda de controle.
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) foi citada por falhas de supervisão. Auditorias anteriores já haviam identificado não conformidades na companhia, como registros incompletos de manutenção e comunicação informal de falhas técnicas. O relatório afirma que essas constatações não resultaram em ações capazes de mitigar os riscos que, mais tarde, se materializaram no acidente.
“O órgão regulador dispunha de elementos para exigir medidas corretivas, mas as inconsistências permaneceram sem sanção efetiva”, apontou o relatório.
Em nota, o Cenipa informou que só se manifestaria publicamente sobre os resultados após a publicação oficial do relatório, etapa prevista para ocorrer após a análise das autoridades de aviação da França, sede da fabricante ATR, e do Canadá, país onde foram produzidos os motores da aeronave.
O documento foi encaminhado a esses países conforme estabelece o protocolo internacional de investigação de acidentes aéreos. Com a divulgação final, espera-se que as recomendações envolvam revisão de procedimentos operacionais da Voepass, treinamento reforçado de tripulações para voo em condição de gelo e aprimoramento dos processos de fiscalização da Anac.
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