Novo documento do NIST mostra que falhas estruturais no Champlain Towers South surgiram três semanas antes do colapso. A tragédia de 2021 matou 98 pessoas na Flórida.
Quase cinco anos depois do desabamento que chocou os Estados Unidos, um relatório final do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia (NIST) detalhou como o condomínio Champlain Towers South, em Surfside, na Flórida, entrou em processo de ruptura estrutural bem antes da madrugada de 24 de junho de 2021, quando a torre veio abaixo e matou 98 pessoas.
O documento, tornado público nesta semana, relata que duas ligações essenciais — entre colunas da garagem e a laje situada sob a área da piscina — falharam no início de junho de 2021. A partir daí começou uma redistribuição de cargas internos, invisível para moradores e síndicos, que comprometeu gradualmente a integridade de toda a edificação.
Os engenheiros descrevem o fenômeno como um “efeito dominó em câmera lenta” que se estendeu por aproximadamente 21 dias, até que a laje cedeu totalmente e desencadeou o colapso em cadeia da estrutura principal.
Segundo os especialistas, o prédio apresentava vulnerabilidades desde a construção, no começo dos anos 1980. O projeto original já operava com margens de segurança consideradas apertadas para a época. Além disso, parte da execução teria sido feita de modo diverso do previsto em desenhos estruturais, reduzindo ainda mais a capacidade de suporte.
Nos anos 1990, foram instalados jardins, floreiras e novos revestimentos na área da piscina, aumentando o peso permanente sobre uma laje que já se mostrava frágil. O acréscimo de carga não foi compensado em cálculos posteriores, aponta o relatório.
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A corrosão salina também teve papel central. Localizado a poucos metros do Atlântico, o Champlain Towers South esteve exposto a maresia intensa por décadas. O contato constante com cloretos deteriorou armaduras de aço, abriu microfissuras e facilitou infiltrações que, segundo o NIST, aceleraram a perda de resistência.
Moradores relataram a técnicos federais uma série de sinais de alerta percebidos antes do desastre: vazamentos na garagem, infiltrações, portas desalinhadas e portões que deixaram de funcionar. Horas antes do desabamento, água teria escorrido de forma incomum pelo teto da garagem. Nenhum desses indícios foi interpretado como risco iminente.
“Se os alertas tivessem sido compreendidos, seria possível isolar a área e evitar a tragédia”, avaliam os investigadores.
A operação de resgate mobilizou bombeiros, equipes civis e voluntários de diversos países, prolongando-se por semanas até que todas as 98 vítimas fossem localizadas. Dos 136 apartamentos, mais da metade foi destruída.
O colapso levou a mudanças legislativas na Flórida. O estado passou a exigir inspeções periódicas mais rigorosas para condomínios com determinadas idades e instituiu reservas financeiras obrigatórias para obras de manutenção. Na avaliação de engenheiros consultados pelo NIST, tais medidas podem reduzir a probabilidade de incidentes semelhantes, mas só terão efeito pleno se acompanhadas de fiscalizações efetivas e treinamento contínuo de administradores prediais.
O relatório técnico completo inclui modelagens computacionais, testes em laboratório e a análise de milhares de páginas de documentos de projeto, manutenção e reformas. Os dados servirão como referência para revisões de normas estruturais em todo o país, além de embasar processos judiciais em andamento sobre responsabilidades civis e criminais relacionadas à tragédia.
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