A senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) protocolou notícia-crime na Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o influenciador digital Paulo Figueiredo, solicitando a abertura de investigação por suposta violência política de gênero. O pedido foi formalizado em 30/06 e se baseou em declarações feitas pelo comentarista durante uma transmissão ao vivo em 25/06, na qual ele afirmou que mulheres “votam mal” e sugeriu que feministas descontentes poderiam “arrancar os pentelhos das calcinhas”.
No documento entregue ao Ministério Público Federal, Soraya argumentou que as falas configuraram discurso discriminatório ao atribuir às mulheres incapacidade de exercer o voto de maneira autônoma, além de reforçarem estereótipos de subordinação ao afirmar que esposas costumam “seguir o voto do marido”. Para a parlamentar, o teor das declarações ultrapassou o limite da liberdade de expressão e violou o artigo 326-B do Código Eleitoral, que trata da violência política de gênero.
“Mulher vota muito mal. Principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido”, declarou Figueiredo na live.
A senadora destacou ainda a repercussão das declarações na rede social X (antigo Twitter), onde o influenciador reafirmou o comentário com termos ainda mais agressivos. Segundo o documento, essa repetição demonstra “dolo e desprezo” pelos direitos políticos das mulheres.
Além da investigação criminal, Soraya pediu que a PGR avalie medidas cautelares, entre elas a proibição temporária de Figueiredo utilizar redes sociais ou publicar conteúdo relacionado ao caso enquanto durar a apuração. A medida, se acatada, poderá resultar no bloqueio da conta que o comentarista mantém atualmente — a oitava, segundo ele próprio, após suspensões anteriores.
Durante a transmissão questionada, Figueiredo também dirigiu ataques à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, comparando-a a “madrastas ruins” de contos de fada e classificando-a de “infantil” e “narcisista”. Embora Soraya tenha citado as ofensas a Michelle, o foco principal da petição recaiu sobre os comentários que atingiram o eleitorado feminino de forma geral.
“As definições de madrasta ruim foram atualizadas”, disse o influenciador ao comentar o vídeo publicado por Michelle.
A defesa de Soraya sustentou que a frase sobre “arrancar os pentelhos” possui conotação sexual e caráter depreciativo, servindo para ridicularizar especialmente mulheres que se identificam como feministas. Para a senadora, o comentário enfraquece a participação feminina no debate público e viola princípios de dignidade da pessoa humana.
A reportagem procurou Paulo Figueiredo em sua conta no X para comentar o caso, mas não obteve retorno até o fechamento deste texto.
Agora, caberá à vice-procuradora-geral da República, responsável pelos processos envolvendo parlamentares federais, decidir se arquiva a denúncia ou se abre inquérito. Caso a investigação avance e sejam verificados indícios de crime eleitoral, o Ministério Público poderá oferecer denúncia ao Supremo Tribunal Federal (STF).
No Congresso, a iniciativa de Soraya repercutiu entre senadoras e deputadas que defendem uma reação institucional a discursos considerados misóginos. Parlamentares de diferentes legendas anunciaram que acompanharão o andamento da notícia-crime e estudarão outras iniciativas para combater ataques direcionados a mulheres na política.
Paulo Figueiredo, que se apresenta como “jornalista censurado pelo Alexandre” em alusão ao ministro Alexandre de Moraes, tem histórico de suspensões em plataformas digitais. A eventual adoção de nova medida cautelar poderia limitar ainda mais sua atuação on-line.
A PGR não informou prazo para manifestar-se sobre o pedido. Enquanto isso, o episódio reaquece o debate sobre os limites da liberdade de expressão quando confrontada com discursos que fomentam discriminação de gênero e desencorajam a participação feminina no processo democrático.
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