O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), encaminha nesta terça-feira, 30/06, pedido para que a Procuradoria-Geral da República (PGR) avalie a abertura de investigação sobre a origem dos recursos aplicados na produção do longa-metragem “Dark Horse”, obra que pretende narrar a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A iniciativa parte de notícia-crime protocolada em 18/05 pelo deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ). O parlamentar solicita que o inquérito em andamento por suposta coação no curso do processo contra o ex-deputado Eduardo Bolsonaro seja ampliado e passe a examinar uma possível conexão entre o financiamento da película, transações do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o banqueiro Daniel Vorcaro — dono do Banco Master — e a atuação internacional de Eduardo na defesa de sanções contra autoridades brasileiras.
No documento, Farias requer a inclusão de Jair Bolsonaro e de Flávio no inquérito, alegando indícios de participação do senador “na captação, cobrança, intermediação ou destinação de valores vinculados” ao projeto cinematográfico, bem como o benefício ao ex-chefe do Executivo pelos recursos envolvidos.
Entre as medidas cautelares sugeridas, o deputado pede a entrega do passaporte de Flávio, a proibição de deixar o país sem autorização judicial, restrição de contato com Vorcaro e bloqueio de bens do senador e de eventuais pessoas ligadas à operação financeira.
Ele ainda solicita o compartilhamento de dados já colhidos contra Eduardo Bolsonaro com as apurações sobre o Banco Master, inclusive contratos, mensagens, áudios e relatórios de inteligência financeira, além de relatório da Polícia Federal sobre possíveis ligações entre os fatos investigados.
“Se ele tivesse me avisado que a situação era grave, eu já teria buscado outro investidor há muito tempo, e o filme não correria risco”, declara Flávio Bolsonaro ao confirmar encontro com Vorcaro após o banqueiro passar a cumprir medidas de monitoramento eletrônico.
Segundo reportagem da Intercept Brasil de 13/05, Vorcaro se compromete a injetar US$ 24 milhões — aproximadamente R$ 134 milhões à época — no projeto. Desse total, ao menos US$ 10 milhões teriam sido liberados entre fevereiro e maio de 2025. As mensagens reveladas apontam que, em outubro de 2025, Flávio pressiona o banqueiro, informando que a produção estava “no limite” do caixa.
Os diálogos também registram um encontro em 02/11/2025, na residência de Vorcaro em São Paulo, que contou com a presença do ator Jim Caviezel e do diretor Cyrus Nowrasteh, ambos envolvidos na realização do longa.
Em 15/05, durante evento em São Paulo, Flávio defende a captação privada para “Dark Horse” e critica o uso de recursos públicos em obras que, segundo ele, funcionam como “propaganda política”. Como exemplo, cita o desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval de 2026 em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Entre os pedidos adicionais, Lindbergh propõe o envio de ofícios ao Coaf, Banco Central, Receita Federal, CVM e outros órgãos para rastrear fluxos de dinheiro ligados ao filme, além de eventual cooperação internacional com os Estados Unidos a fim de obter registros financeiros e societários no exterior.
Ele sugere investigar possíveis crimes de lavagem de dinheiro, financiamento eleitoral irregular, propaganda eleitoral dissimulada, caixa paralelo, organização criminosa, coação no curso do processo e atentado à soberania nacional.
Com o despacho de André Mendonça, a PGR passa a ter a palavra sobre o prosseguimento ou não da investigação que, se instaurada, poderá ampliar o alcance do inquérito já existente sobre a família Bolsonaro e seus aliados. A decisão da Procuradoria será determinante para definir os próximos passos do caso, que envolve cifras milionárias, produção cinematográfica internacional e disputas políticas no país.
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