HOJE, 23 de junho, o referendo que retirou o Reino Unido da União Europeia completa exatamente dez anos, mas a ferida política aberta em 2016 continua longe de cicatrizar. Pesquisa recente do instituto YouGov indica que 56% dos entrevistados consideram a decisão de deixar o bloco europeu um erro, e 62% classificam o processo como um fracasso.
Em 23/06/2016, 51,9% dos eleitores votaram pela saída da UE, contra 48,1% que preferiam permanecer. A votação dividiu o país em duas identidades que resistem ao tempo: os Leavers, defensores do desligamento, e os Remainers, favoráveis à integração europeia.
“O referendo transformou o que antes era um debate distante em uma profunda divisão social e política. Quase dois terços dos britânicos ainda se identificam como Leavers ou Remainers, e esses vínculos às vezes superam a lealdade partidária”, explica Sara Hobolt, professora de Instituições Europeias e diretora do Departamento de Governo da London School of Economics.
A efeméride vem um dia após o anúncio da renúncia do primeiro-ministro trabalhista Keir Starmer, que ficou no cargo por quase dois anos. A saída deixa o Reino Unido prestes a conhecer seu sétimo premiê em pouco mais de uma década—ainda outro reflexo da instabilidade alimentada pelo Brexit, segundo analistas.
“O Reino Unido está prestes a ter seu sétimo primeiro-ministro em pouco mais de dez anos”, reforça Hobolt.
Quase todas as apostas em Westminster apontam para Andy Burnham, figura da ala mais à esquerda do Partido Trabalhista, como sucessor natural. Até agora prefeito da Grande Manchester, Burnham retornou à Câmara dos Comuns em maio, após vencer uma eleição suplementar no noroeste da Inglaterra.
“Existe um argumento de longo prazo a favor de voltar à União Europeia”, disse Burnham ao canal ITV durante a campanha suplementar, mas ele ponderou que não levantaria essa bandeira naquele momento.
Para Catherine Barnard, professora de Direito da UE e do Trabalho na Universidade de Cambridge, o potencial novo premiê caminha em terreno minado:
“A questão é se Burnham irá além de Starmer na aproximação com a Europa ou se, por representar um distrito que apoiou a saída, adotará postura mais prudente. O trauma do Brexit permanece e o eleitorado segue dividido.”
Enquanto o país aguarda a próxima liderança, as estatísticas da última década ajudam a medir o impacto do Brexit. O comércio com o bloco europeu encolheu, regras alfandegárias mudaram rotinas logísticas e trabalhadores estrangeiros enfrentam maiores barreiras de entrada. Por outro lado, defensores da separação argumentam que Londres recuperou autonomia regulatória e abriu caminho para acordos bilaterais.
Com lembranças frescas do referendo e incertezas sobre o futuro político, o Reino Unido encara seu décimo aniversário de Brexit cercado por questionamentos que, segundo pesquisas, apenas se intensificaram ao longo do tempo.
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