Para evitar perguntas de jornalistas, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) passou a abrir espaço a donos de canais do Youtube simpáticos ao governo. A estratégia foi adotada em meio a polêmicas que envolvem Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal (STF) à respeito das investigações sobre suposta organização criminosa responsável pela disseminação de fake news na internet. As informações são do colunista Daniel Carvalho, do jornal Folha de São Paulo, divulgadas nesta terça-feira (2).
Na última quarta-feira (27), influenciadores digitais que apoiam o governo foram alvos de uma operação da Polícia Federal (PF) autorizada pelo relator do inquérito das fake news no STF, Alexandre de Moraes. Em seu canal, Lisboa faz críticas a ministros da corte, a governadores e ao presidenta da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ).
Um dos youtubers que apoiam o presidente é Fernando Lisboa, do vlog do Lisboa, canal que possui mais de 500 mil inscritos no Youtube e quase 80 mil seguidores no Twitter. Ele esteve no Palácio do Planalto, nesta segunda-feira (1º).
A imprensa também é atacada por Lisboa. “Se a mídia não quer ser hostilizada, me desculpa, tome um pouco de vergonha na cara, que é bom, um pouco de ‘semancol’, caráter, e mostra a verdade. Ninguém está pedindo aqui para ficar bajulando o Bolsonaro, não. Mas que mostre a verdade, só isso. Ok?”, afirmou em um vídeo assistido por quase 64 mil pessoas.
Na quinta-feira (28), o presidente se irritou enquanto fazia um pronunciamento no espaço reservado a jornalistas no Palácio da Alvorada, em Brasília. “Querem tirar a mídia que eu tenho a meu favor sob o argumento mentiroso de fake news”, disse Bolsonaro.
Outra influenciadora que foi recebida pelo presidente é Bárbara Zambaldi Destefani, dona do canal Te atualizei. No fim de semana, ela publicou uma entrevista de 52 minutos com Bolsonaro. A entrevista foi realizada horas antes do vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril.
Destefani e mais 10 perfis estão entre os investigados no suposto esquema de fake news. Moraes pediu a quebra de sigilo de identidade de três perfis, entre os quais está o da youtuber. Após a decisão do ministro, ela publicou um vídeo em que diz que apareceu no inquérito do STF por causa da entrevista com o presidente.
“Se vão fazer uma busca e apreensão na minha casa, não sei. O que eu sei, tenho certeza absoluta, é que, quando a PF chegar na minha casa, se isso acontecer, para pegar meu celular e o meu computador, eles não vão nem abrir, vão ter certeza que eu não sou financiada”, disse a influenciadora.
Valorizar blogueiros simpáticos ao governo e de tentar espaço na mídia regional também foi adotada pelo ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT-SP). Na última semana, a Secretaria de Comunicação (Secom) da Presidência anunciou que está debatendo a criação de uma rede para distribuir conteúdo sobre o governo federal a veículos regionais.
“Atualmente, os fatos que ocorrem em Brasília são divulgados, em sua maioria, por grandes veículos de circulação nacional. A ideia do projeto é dar uma atenção às empresas de comunicação regional que têm dificuldade de manter suas equipes de jornalismo na capital federal”, diz o material de divulgação da Secom da gestão Bolsonaro.
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