Relatos na COP17 mostraram o impacto humano de secas, inundações e degradação do solo na América Latina. Dados apontam que cerca de 28% das terras latino-americanas estão degradadas, muito acima da média mundial.
Relatos de comunidades da América Latina mostraram, durante a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), a dimensão humana de secas, inundações e da degradação de terras na região. As histórias reunidas na conferência, que terminou na semana passada em Ulaanbaatar, na Mongólia, colocaram em evidência a distância entre decisões internacionais e as necessidades cotidianas de quem vive da terra.
Dados apresentados na conferência indicaram que cerca de 28% dos territórios da América Latina são de terras degradadas, índice muito superior à média global, estimada entre 15% e 16%. O encontro concluiu com a criação de novos mecanismos de financiamento, discussões sobre uma arquitetura global de resiliência à seca e maior participação formal de povos indígenas e comunidades — avanços que, segundo representantes latino-americanos, ainda precisam se traduzir em mudanças concretas nos territórios.
No Corredor Seco Centro-Americano, Xenia López trabalha com 16 comunidades rurais e semiurbanas no departamento de Chalatenango, em El Salvador, e descreveu as dificuldades enfrentadas por agricultores que dependem de chuvas cada vez mais irregulares. A região, que vai do sul do México ao oeste do Panamá, tem sido particularmente vulnerável aos períodos prolongados de estiagem e ao empobrecimento do solo por uso intensivo de produtos químicos.
“Há zonas que enfrentam longos períodos de verão e episódios de calor intenso no inverno. Quando deveria chover e abastecer a agricultura, simplesmente fica seco”
Xenia relatou que vem promovendo práticas agroecológicas para melhorar o aproveitamento da água e proteger o solo, em contraponto à agricultura intensiva. Segundo ela, essas soluções são comunitárias, mas requerem apoio institucional para ganhar escala e gerar segurança alimentar de forma sustentável.
“A agroecologia, ao invés da agricultura intensiva, nos permite fazer um uso mais eficiente da água e proteger o solo, em vez de tratá-lo apenas como um recurso do qual podemos usar e abusar”
No espaço da COP17, representantes centro-americanos conseguiram visibilidade para demandas locais, com apoio de outras delegações. Sobre esse apoio em feiras e pavilhões do evento, Xenia disse:
“No evento, contamos muito com a ajuda do Brasil, que nos deu espaço no pavilhão do país. Lá, conseguimos compartilhar nossas histórias e lutas. Mas precisamos de ajuda para ampliar nossas vozes em espaços internacionais e ter um lugar específico para as questões da América Central”
No Chaco Americano argentino, a professora e ativista Antonella Sleiman relatou que uma área historicamente afetada pela seca viveu inundações inéditas no ano, que devastaram plantações e alteraram práticas locais de produção. Comunidades que produzem milho, abóbora e criam gado para subsistência e venda perderam estoques e pastagens.
“Este ano, pela primeira vez, algumas comunidades precisaram comprar alimentos para as famílias e para os rebanhos em localidades distantes. Essa mudança gerou muitos problemas”
Antonella participa da Mesa de Tierra del Salado Norte, que reúne oito organizações camponesas e indígenas numa área de cerca de 80 quilômetros, e integra a Plataforma Semiaridos, formada por 16 instituições de 10 países. Ela ressaltou a necessidade de transformar a visibilidade obtida em espaços de negociação efetiva.
“Não gostaria que nossas lutas ficassem restritas às nossas realidades, mas que fossem captadas e ampliadas. Que pudéssemos ser capazes de incidir nas negociações que decidem o futuro de todos nós. Trazemos as vozes dos nossos territórios sem intermediários, então, seria importante que pudessem nos escutar e nos incluir nas decisões”
Na Amazônia peruana, o indígena shipibo-konibo Gilmer Yuimachi alertou para outro aspecto das secas: além da perda de alimentos e do esgotamento de rios, comunidades veem ameaçada a transmissão de culturas e conhecimentos ancestrais. Representantes indígenas presentes na conferência defenderam maior participação direta nas negociações e a consideração de saberes tradicionais em políticas de restauração e gestão da terra.
Os relatos reunidos em Ulaanbaatar destacaram que as respostas à desertificação e à variabilidade climática precisam ligar financiamento internacional, políticas públicas e práticas locais, reconhecendo diferenças regionais como a transição entre secas e eventos extremos de inundação. Para os delegados da América Latina, o desafio é garantir que as decisões globais cheguem de forma prática a agricultores, povos indígenas e comunidades que dependem diretamente da terra.
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