Depois de 30 meses de pesquisa, o Laboratório de Nanobiotecnologia (LNANO) da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília, revelou na última sexta-feira, 30/05, amostras de alimentos de base vegetal que imitam filé de salmão, caviar e anéis de lula. Os protótipos saem de impressoras 3D capazes de reproduzir cor, textura, sabor e valor nutricional muito próximos aos dos produtos marinhos tradicionais.
O desenvolvimento começou com um mapeamento detalhado da composição das carnes de origem animal. A equipe focou nos três macronutrientes fundamentais — carboidratos, lipídeos e proteínas — e buscou insumos vegetais que pudessem fornecer proporções equivalentes. Farinhas de leguminosas, óleos de algas, proteínas isoladas de plantas, corantes naturais e espessantes formam as chamadas “tintas alimentícias” que abastecem as impressoras.
“São, em sua maioria, ingredientes que usamos na cozinha de casa. A diferença é o ajuste fino das quantidades para alcançar o mesmo perfil nutricional do tecido animal”, explicou a bióloga Cínthia Caetano Bonatto, pesquisadora bolsista no LNANO.
Boa parte dessas matérias-primas foi selecionada nos Bancos Ativos de Germoplasma mantidos pela Embrapa, um acervo conhecido internamente como “arca de Noé” pela diversidade genética que abriga. Segundo os cientistas, essa coleção permite desenvolver formulações muito específicas, enriquecendo os alimentos impressos com vitaminas, minerais e aminoácidos essenciais.
“A tecnologia nos permite fazer o enriquecimento nutricional dos produtos impressos e, ao mesmo tempo, reduzir pressões sobre a pesca ou o abate de animais”, destacou a biotecnóloga Gabriela Mendes da Rocha Vaz.
O potencial de impacto social também foi mencionado. Em comunidades vulneráveis, onde a oferta de proteína é limitada ou cara, a impressão de alimentos pode criar novas rotas de abastecimento. Por ser modular, o equipamento pode atuar em cozinhas industriais, restaurantes ou até, no futuro, em versões domésticas.
Os protótipos já passaram por degustação de voluntários credenciados após aprovação de um comitê de ética. O feedback coletado apontou semelhanças no sabor e na mastigação, mas os pesquisadores admitem que ajustes sensoriais ainda serão feitos antes de um lançamento comercial.
“Colocamos o experimento na vitrine para mostrar a viabilidade tecnológica, mas a chegada ao mercado depende do modelo de negócios que empresas adotarem”, afirmou o pesquisador Luciano Paulino da Silva, que coordena o projeto.
A iniciativa recebeu financiamento do Good Food Institute (GFI), organização global que fomenta alternativas à proteína animal. No exterior, produtos impressos em 3D já têm autorização de venda em países como Austrália, Estados Unidos, Israel e Singapura. No Brasil, além da Embrapa, outras universidades trabalham em aplicações médicas e gastronômicas da tecnologia.
Próximos passos envolvem testes de escala industrial, análise de custos e adaptação de rótulos às normas vigentes. Enquanto isso, o LNANO continua refinando receitas e explorando novas espécies vegetais para ampliar o portfólio — sinal de que o cardápio vegano de alta fidelidade pode chegar às prateleiras mais cedo do que se imagina.

Siga o AjuNews e entre no nosso grupo de notícias de Aracaju.









