A três semanas do primeiro turno, Samira de Castro, presidenta da Fenaj, afirma que a campanha privilegia escândalos e marketing em vez de propostas. Ela diz que redes e busca por cliques sufocam debates estruturais.
A três semanas do primeiro turno, a presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Samira de Castro, avalia que o processo eleitoral de 2026 se concentra mais em escândalos e estratégias de marketing do que em programas de governo. Em entrevista concedida nesta terça-feira, ela afirma que a combinação de atenção pulverizada nas redes sociais e disputa por cliques na mídia tradicional empurra para segundo plano as discussões estruturais sobre o país.
“Sofremos um processo violento de ‘tiktokização’ da campanha eleitoral. Tudo se resume à dancinha”
Segundo Samira, o fenômeno não nasce apenas nos aplicativos, mas ganha força porque parte dos veículos de comunicação opta por conteúdos de consumo rápido. A busca ininterrupta por audiência, explica, deixa pouco espaço para assuntos densos, como políticas climáticas, desenvolvimento econômico ou reforma tributária. “Há uma escolha editorial pelo que rende engajamento instantâneo”, acrescenta.
A dirigente lembra que o noticiário é dominado pela crise político-institucional desencadeada pelas revelações do chamado caso Master, investigação que já envolve Judiciário e Polícia Federal. O tema, embora relevante, suga tempo e energia das redações, reduzindo a visibilidade de propostas. Para ela, o risco é chegar às urnas sem que o eleitorado conheça em profundidade as diferenças entre os projetos dos concorrentes.
“O debate eleitoral fica prejudicado porque as atenções se voltam todas para a crise institucional. As pautas comuns dos períodos eleitorais passam a ocupar um segundo plano”
Questionada sobre como equilibrar cobertura investigativa e discussão programática, Samira defende insistência em pautas de longo prazo. Ela diz que a imprensa pode — e deve — seguir acompanhando o desenrolar do caso Master, porém sem abrir mão de entrevistas, checagens e comparações de propostas nos campos social, econômico e ambiental.
Na visão da Fenaj, o jornalismo declaratório — reportagens baseadas quase exclusivamente em falas de atores políticos — também contribui para a superficialidade. “Ficamos no ‘quem disse o quê’ e perdemos a chance de ouvir a sociedade civil”, observa. Temas como mudanças climáticas, exploração de terras raras e inserção internacional do Brasil, na avaliação da presidenta, raramente entram na pauta de forma consistente.
Samira destaca ainda que campanhas e plataformas digitais convergem para uma estética padronizada, em que jingles, coreografias e cortes de vídeo têm mais relevância que propostas concretas. O resultado, aponta, é um eleitor exposto a conteúdo entretenimento, mas carente de informações para decidir o voto de forma consciente.
“O jornalismo precisa cumprir sua função social de compartilhar informação de interesse público, capaz de gerar cidadania”
Ela conclui que, diante da disputa acirrada por atenção, somente um esforço conjunto entre mídia, academia e sociedade civil pode resgatar a centralidade do debate programático nas eleições de 2026.
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