Entrevista


Historiador “viaja” no tempo ao contar a origem dos principais bairros de Aracaju


Publicado 17 de março de 2020 às 13:06     Por Roberta Cesar     Foto Larissa Barros / AjuNews

Neste 17 de março, quando Aracaju completa 165 anos, o AjuNews traz uma entrevista com o historiador e coordenador da Divisão de Apoio à leitura e Gestão do Livro da Secretaria da Educação de Sergipe, Marcos Vinícius Melo. À nossa reportagem, o especialista relata além diversas curiosidades sobre a cidade de Aracaju, os primeiros bairros, os protagonistas, além de esclarecer algumas dúvidas sobre o significado de “Aracaju”.

Leia a íntegra da entrevista:

AjuNews: Qual o significado do nome Aracaju e como surgiu a cidade?
Marcos Vinícius Melo: Antes da gente entender o significado, a gente precisa entender o que existia nesta região, aqui onde hoje é a cidade de Aracaju. Era alagadiço, era mangue, então era uma região com muita água e só na parte de cima, na Colina do Santo Antônio é que você tem um arraial de pescadores. Quando a gente diz arraial é uma coisa bem simples mesmo, casa de palha, de sopapo aquele barro como a gente diz.
A história de Aracaju começa com uma ideia de Inácio Barbosa que foi nomeado por Dom Pedro II para ser o presidente da Província de Sergipe, então Inácio Barbosa vem para cá e ele percebe uma curiosidade em Sergipe, primeiro a capital São Cristóvão não estava no litoral de frente para o mar, estava afastada, mas tem uma lógica porque a capital foi colocada lá numa época que se pensava em cidade fortaleza, em ter defesa de algum ataque de piratas, franceses como eles diziam, na verdade os franceses que queriam fazer o intercâmbio do comércio com os índios e entra em conflito com os portugueses.
Quando ele chega em São Cristóvão capital de Sergipe, ele percebe que a capital está longe do mar, e o que isso tem a ver? Você começa a pensar na exportação, qual o controle que a capital tinha sobre tudo que era exportado, aí vem a pergunta, exportação de que? Nessa época, a vila de Laranjeiras era muito mais rica do que São Cristóvão, que a capital. Os rios não estavam tão assoreados assim então existiam um comércio muito grande direto com Laranjeiras, então os navios, barcaças, saveiros chegavam até Laranjeiras, chegavam até Maruim para esse comércio e o comércio de cana-de-açúcar, região do Cotinguiba que até hoje é rica em produção de cana, então a região exportava muita cana de açúcar e ela recebia também os escravos, os negros que foram escravizados para ser a mão de obra.
Quando você tem Laranjeiras e o entorno de Laranjeiras muito mais rico que a capital, então Inácio Barbosa pensa logo o seguinte: a capital precisa estar em um local de frente para o mar, onde tenha a possibilidade de ter um porto e possa controlar todas as importações e exportações, até porque também nessa época tinham lojas em Laranjeiras que recebiam produtos europeus para revender, então a primeira coisa é essa, questão econômica, ele começa a pensar em como a capital seria o local que pudesse ter um controle econômico.
Outra coisa é questão geográfica mesmo. São Cristóvão apesar de não estar muito distante do litoral, mas ela não tem uma facilidade para você ligar principalmente com as vilas do norte, quando você de Maruim, Santo Amaro, Laranjeiras e subindo. E outra questão era de ter um controle político maior, para que a política ficasse centralizada e ele tivesse apoio também de todos os donos de engenho, ele tendo a capital num local que tivesse melhor acesso, melhor comunicação, iria desenvolver mais ainda a cidade, e onde ser a capital? Ele vem para onde hoje é Aracaju e diz vamos trazer para cá e vamos criar uma cidade aqui, consegue ter um controle dos deputados e aprova o decreto, através do decreto, eleva o povoado Santo Antônio do Aracaju de condição de cidade a capital.
Então, Aracaju nasce lá na Colina do Santo Antônio, porém, ele chama o engenheiro Sebastião Pirro para fazer o planejamento urbanístico da cidade, quando ele observa o terreno que tinha então ele faz um plano para que se criasse uma cidade em formato de tabuleiro de xadrez, se você olhar os quarteirões eles têm as mesmas medidas e vai onde hoje é na parte norte a avenida Coelho e Campos, na parte sul seria a Barão de Maruim, na parte leste a Ivo do Prado, e na parte oeste a Pedro Calazans. Dentro deste quadrado é traçado o mapa onde seria construída a cidade, lógico o grande desafio de Aracaju foi vencer a água, então teve que aterrar muito, imagine o que é aterrar riachos, drenar riachos, aterrar mangue numa época que não tinha caminhão, não tinha trator, era só com o carrinho de mão, com carro de boi, com carroça.
Inácio Barbosa consegue trazer para cá a ideia da cidade e aí vem a questão do nome, aí você vai buscar o nome no Santo Antônio do Aracaju. E, por que fica somente Aracaju e qual o significado de Aracaju? Têm pessoas que dizem que o significado é “Cajueiro dos Papagaios”, essa é a explicação mais simples, mas isso é relativo porque “Ara” em tupi-guarani quer dizer “tempo”, então uma das explicações é que seria o “Tempo dos Cajus”, até porque têm relatos de disputas entre grupos indígenas sobre a posse das terras por causa dos cajus, que era um alimento. Uma outra coisa que é mais romântica ainda é que “Ara” vem da arara, do pássaro grande que vai para o cajueiro, mas uma coisa é certa: a questão da presença do cajueiro, e a presença do caju nesta região é o que vai ajudar a dar o nome.

AjuNews: Quem são os protagonistas dessa história?
Marcos Vinícius Melo: O primeiro protagonista vai ser Inácio Barbosa, por conta da ideia fixa de trazer uma nova visão para Sergipe implantando a capital no litoral, lógico que ele vem com essa ideia porque teve o apoio de Dom Pedro II. E Inácio Barbosa faz a mudança em março, e em outubro ele vai falecer, porque ele pegou cólera aqui em Aracaju, ele não vê a cidade completar um ano.
Quando a gente fala em protagonistas fala em pessoas que participaram da história ativamente, e tem seu nome inserido não só na história de Aracaju, mas de Sergipe. Por exemplo, o Fausto Cardoso, que era um deputado apoiado pelos profissionais liberais, que era o contrário de Olímpio Campos, que era conservador. Com o incentivo dos apoiadores de Fausto Cardoso, eles resolvem invadir o Palácio para tentar dar um golpe e assumir o poder. Fracassado porque a polícia chega, ele toma a frente e vai fazer o discurso, a polícia atira e ele acaba falecendo, mas a revolta de Fausto Cardoso é algo mais amplo que foi na cidade de Aracaju, mas que repercutiu em Sergipe.
Outro momento importante em Aracaju é a Revolução Tenentista, em 1922 os tenentes se revoltaram na praia do Forte, em Copacabana, que é aquela famosa revolta dos 18 do forte, além disso, você tem outros movimentos no Brasil. Sergipe teve Revolução Tenentista, Augusto Maynard junto com João Soarino, Eurípedes eles invadem, tomam o palácio, passam um ano governando, os tenentes com os militares fazem trincheiras onde hoje é a Treze de Julho, que na época era Praia Formosa, o nome Trezes de Julho é por conta dessa revolta porque essa revolta foi feita no dia 13/07/1924, e eles cortaram o telégrafo, toma conta das ferrovias e impede toda comunicação com o resto do país, acontecendo isso, um mês depois o Governo Federal manda tropas e os tenentes acabam se entregando. Então a Revolta Tenentista foi um marco na história de Aracaju.
Outra coisa que a gente pode destacar de Aracaju, é a questão da Segunda Guerra Mundial quando tem os torpedeamentos dos navios brasileiros na costa sergipana, e esses torpedeamentos fazem com que a população de Aracaju se revolte e as primeiras manifestações no Brasil contra a Alemanha ocorreram em Aracaju, pelos alunos do Atheneu Sergipense e pelos alunos do colégio Tobias Barreto. Quando os navios foram torpedeados, muitos sobreviventes chegaram nas praias de Atalaia perto do Mosqueiro e chegavam com corpos, eles encontraram corpos em sepultos, muita quinquilharia de navio e como encontraram muita gente morta acabaram chamando de “rodovia dos náufragos”, por conta dos naufrágios, [rodovia localizada no bairro Mosqueiro, zona de expansão de Aracaju], no Mosqueiro existe um cemitério em homenagem aos náufragos. Aracaju não nasceu capital lá no início, mas a partir que se tornou capital vai agregando e vai ditando muitas coisas para história de Sergipe.

AjuNews: Aracaju foi realmente planejada? Comente sobre o engenheiro Sebastião Pirro e o planejamento que ele e Inácio Barbosa fizeram para Aracaju.
Marcos Vinícius Melo: Imagine numa época você estar em um local onde para onde você olha são muitos riachos, muitos alagadiços, muitos apicuns, e muito mangue, então o primeiro desafio era aterrar, mas mesmo assim o Pirro imaginou como seria interessante uma cidade, quando ele imaginou os quarteirões é porque nesses quarteirões dava para você ter casas normais, estabelecimentos comerciais.
Quando ele faz o planejamento no formato de tabuleiro de xadrez, era para quem tivesse lá no final da cidade, tivesse vindo de São Cristóvão pudesse avistar o rio, e facilitar a locomoção, a ideia dele foi deixar planificada. O maior desafio de Aracaju era vencer a água, planificar para construir casas. A ideia do Pirro era algo diferente, na verdade ele foi muito inspirado por Paris que também foi uma cidade projetada.

AjuNews: Qual a relação de Aracaju com o povoado Santo Antônio?
Marcos Vinícius Melo: Hoje, o bairro Santo Antônio, que hoje a gente qualifica de bairro, é o lugar mais charmoso de Aracaju. É tanto que a maioria das pessoas quando recebem alguém de fora de Sergipe, quando quer mostrar Aracaju passa pelo bairro Santo Antônio, porque é uma colina que você tem toda visibilidade. Então, dali eles tinham uma visibilidade de toda a parte baixa. A cidade cresce embaixo no quadrante de Pirro mas fica uma rodovia que hoje seria ali do edifício Maria Feliciana e seguiria direto até a colina. Hoje a colina tem uma referência, um significado é tanto que são dois lugares que você sempre vê os prefeitos comemorarem o aniversário de Aracaju: a missa na colina de Santo Antônio do Aracaju e o hasteamento da bandeira no memorial de Pirro, na praça minigolfe. Então a colina de Santo Antônio ficou como esse local de charme, de referência histórica, ponto turístico, local de observação, diria que a colina tem um significado muito importante para a cidade.

AjuNews: Quais os fatores fizeram com que Aracaju se desenvolvesse mais rápido que as outras cidades?
Marcos Vinícius Melo: Primeiro, quando eu falei lá atrás que Inácio Barbosa precisava da cidade em um local com uma característica diferente. São Cristóvão foi fundada com uma característica de cidade fortaleza e Aracaju é fundada com a característica de cidade porto. Então, quando você tem uma cidade que tem possibilidade de receber navios, receber produtos, receber revistas, receber cultura essa cidade tende a ter um crescimento maior. Então, Aracaju passa a ser essa cidade. No Rio Sergipe, existiam vários ancoradouros onde esses barcos que vinham principalmente do Rio de Janeiro, eles ancoravam aqui, na época chamavam de porto.
A gente tem que levar em consideração que o comércio na época era feito por navios, então como Aracaju tinham esses ancoradouros recebia todo tipo de produto. Por exemplo existiam empresas que eram representantes de empresas europeias vendendo ferragens, roupas, então Aracaju é capital mas passa a ter um ar de cidade que tem uma influência europeia. As outras cidades vão crescer depois por conta própria no seu comércio, na sua produção, mas naquela época Aracaju se destacava, era porta de entrada a porta de exportação, todos os produtos saiam daqui. O comércio muito intenso faz com que Aracaju cresça, o dinheiro circulando e fazendo com que cada vez mais tivesse investimento na cidade, foi por isso que Aracaju se destacou.

AjuNews: Quais foram os primeiros bairros?
Marcos Vinícius Melo: A gente pode fazer um destaque em três bairros, onde hoje é o bairro Industrial, o bairro São José e o bairro Siqueira Campos. Onde é o bairro Industrial, Aracaju começa a crescer já está na virada do século, surgem as primeiras fábricas, que a gente chama de indústrias tecidos, então essas fábricas começam a trazer pessoas para trabalhar e essas pessoas acabavam morando próximo da região, então o bairro Industrial ele cresce cercado dessas fábricas por conta do trabalho. Existia uma linha de bonde que ligava o centro da cidade ao bairro Industrial. Hoje é pertinho, mas naquela época tinha uma certa distância. O bairro São José, e aí a gente começa a pensar naquela região da curva do iate, onde existiam os atalaiadores que eram pessoas que observavam os navios que chegavam pela barra do rio Sergipe, essas pessoas acabam morando ali onde hoje é o bairro São José. Um outro bairro é o Siqueira Campos que foi conhecido no início como as oficinas do Aribé, a história conta que Aribé era uma senhora que morava nessa região e que era muito conhecida e o local acabou conhecido como Aribé, as oficinas que estou falando, na Avenida Augusto Franco ainda tem uma linha do trem e essa linha do trem chegava ali no Siqueira Campo que tem uma estação ferroviária e a linha do seguia pela Coelho e Campos até o Mercado e era para levar os produtos até lá, essa estação ferroviária era conhecida como “as oficinas”, então era um bairro que cresceu ao redor dessas oficinas da linha do trem. Esses três bairros vão crescendo e tendo uma importância na quantidade populacional, de ocupação territorial, de estabelecimento de comércio e Aracaju começa a ter esse crescimento, eu destaco esses três bairros como elemento no crescimento da cidade.

AjuNews: Quais as principais localidades de Aracaju e quais são as histórias que elas abrigam?
Marcos Vinícius Melo: É relativo. Você pode escolher, por exemplo, hoje temos um centro de cultura onde antigamente era o presídio do bairro América, é um local com potencial histórico e próximo você tem a igreja dos Capuchinhos que também é outro ponto muito bonito que tem uma história, que tem um a relevância principalmente de apoio ao moradores daquela região, porque primeiro foi construído a penitenciária e depois algumas pessoas mais pobres, que têm parentes que estavam presos acabavam morando naquela região e os Capuchinhos acabam ajudando. Você tem hoje inegavelmente a Colina do Santo Antônio que é um ponto, outro ponto que a gente não pode esquecer que é atual o funcionamento mas a estrutura é antiga, que é o Museu da Gente Sergipana, que já funcionou a Secretaria da Educação, Atheneuzinho, é um prédio antigo que já teve vários funcionamentos e hoje é um museu que traz a referência do povo sergipano. A própria Atalaia Velha é uma referência, seguindo para o Mosqueiro tem a Rodovia dos Náufragos, para onde você olha tem um centro histórico repleto, de centro histórico você tem as praças, estátuas, ainda a presença de casarões, de monumentos antigos, os Mercados e a estrutura física dos Mercados, a questão da construção são imponentes, o viés cultural do próprio Mercado, o artesanato onde você encontra o saber, o fazer, os cheiros, os gostos de Sergipe se encontram no Mercado. Hoje você tem muitos pontos em que você faz uma lista, tem a praça do minigolfe, se você começar a fazer uma volta na cidade, em vários lugares têm referência, a praça do Siqueira Campos como elemento agregador, o Batistão, todos esses elementos são elementos que de uma forma ou de outra representa a cultura aracajuana e sergipana, são várias, é até difícil nomear todas.

AjuNews: Qual ou quais os maiores símbolos históricos que define ou definem Aracaju?
Marcos Vinícius Melo: Quando você vai para o imaginário popular, o que mais vai definir Aracaju é o caju, é tanto que tem um tempo que a prefeitura estimulou artistas plásticos a pintarem cajus pela cidade. Você tem um monumento de caju na ponte que liga à Coroa do Meio, você tem caju no Mercado, foi estimulado o caju, então, o caju acaba sendo uma grande referência para Aracaju. A Orlinha do bairro Industrial acaba sendo uma referência também, o Museu da Gente Sergipana, quando você começa a pensar em referências elas extrapolam a cidade, por exemplo quando você tem uma música que foi considerada música do século “Eu quero o cheiro das manhãs da minha terra, ver o sol nascer a serra e o vento norte soprar, eu quero mesmo é ficar bem juntinho dela na praia de Atalaia mirando as ondas do mar”.
Você tem um monumento que são os Arcos da Orla, foi colocado aquele “Eu amo Aracaju”, então a sendo um local que as pessoas se sentem representadas, uma identidade, o caranguejo, a passarela do caranguejo, o farol na Farolândia. São pontos que têm uma representatividade para a cidade e que qualquer pessoa que seja aracajuana, que veja isso pensa que isso a representa, que tem um pouco da história dela, pode não conhecer a história do prédio, a história do monumento, pode não conhecer a história da Ponte do Imperador, mas tem esses monumentos, esses espaços como espaços de representação da identidade aracajuana e consequentemente representação da identidade deles. Sem falar nos parques que nós temos aqui. O Parque da Cidade, o Parque da Sementeira e o outro Parque dos Cajueiros, que também acabam sendo elementos agregadores da grande população. O elemento maior seria o caju, é tanto que você vai no Mercado, o que tem de lembrancinha, chaveiro, de cofre, de tudo no formato de caju é o que mais os turistas compram para levar. Temos vários elementos de representação cultural e acaba tendo um valor histórico.

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