O ano de 2020 foi marcado por várias reivindicações pelo movimento negro, principalmente, após a onda do Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). As ações, inclusive, influenciaram o cenário das eleições municipais.
Em Sergipe, apesar de 5.471 candidatos autodeclarados negros concorrerem a cargos nas eleições de 2020 em Sergipe, contra 1.405 brancos, proporcionalmente, os brancos foram mais eleitos do que os negros no estado. Os números são das estatísticas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Em entrevista ao AjuNews, o professor e especialista em Gestão de Projetos de Desenvolvimento de Comunidades Afrodescendentes da América Latina, Robson Anselmo, avaliou essas candidaturas no pleito de 2020.
Para ele, em Sergipe, a autodeclaração de cor/raça serviu para promoção dos candidatos e não de “inferiorização”, apontando supostas fraudes nos registros de candidaturas. “Muitos que não vivem a condição social de negro, que não são socialmente reconhecidos como negros, assumem a negritude para tirar vantagens”.
À reportagem, o professor ainda apontou as supostas fraudes no sistema eleitoral, influenciadas pela destinação de recursos do Fundo Especial Eleitoral por parte dos partidos para os candidatos e candidatas negros. Por lei, os recursos de campanha deveriam ser divididos proporcionalmente entre os postulantes negros e brancos.
“A maior parte dos negros e negras que foi candidato não recebeu qualquer recurso do Fundo Especial Eleitoral. Os partidos são instituições da sociedade, e, portanto, reproduzem muito das práticas racistas, machistas e excludentes. As direções dos partidos canalizaram os recursos para candidatos de seus interesses, neste caso, para alguns poucos, como ocorreu aqui em Sergipe”, criticou.
No Brasil, em geral, pouco mais de 32% dos prefeitos eleitos em primeiro turno nas eleições municipais deste ano são negros. É uma proporção ainda distante dos 56% que esse grupo representa na população brasileira, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas é um pequeno avanço, já que em 2016 a taxa foi de 29,2%.
Para o especialista, esta elevação do percentual foi influenciada positivamente por alguns fatores. Segundo ele, o principal é o fato da sociedade estar em constante mudança, insinuando “rupturas ou rachaduras no sistema”. “O negro não esteve paralisado diante da opressão e o seu protesto vem causando pequenas alterações”.
Ele também destacou o contexto das eleições 2020. O ano foi marcado por diferentes protestos pela causa negra, principalmente, após os casos de racismo que aconteceram e acontecem nos Estados Unidos.
“Assistimos o ecoar do grito do racismo extremado nos tempos mais recentes, com destaque para os acontecimentos nos Estados Unidos que, por serem lá, toda a imprensa noticia e propaga o protesto negro. Essa confluência de fatos e situações concorrem para a conformação dos resultados eleitorais neste ano”, analisou.
Dia da Consciência Negra
Nesta sexta-feira (20), é celebrado o Dia da Consciência Negra, em todo o país. A data faz referência ao dia da morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo de Palmares, que lutou para preservar o modo de vida dos africanos escravizados que conseguiam fugir da escravidão.
Para o professor Robson, “todas as conquistas da população afro-brasileira são resultado direto da ação, da luta do protesto dos movimentos negros. E grafo no plural porque não há um movimento negro homogêneo ou um que seja a representação absoluta da população negra”.
Em Sergipe, a Fundação de Cultura e Arte Aperipê (Funcap) realiza, desde quinta-feira (19), comemorações alusivas ao acontecimento histórico. A entidade disponibilizou uma exposição coletiva ‘Olhares Negros’, no Corredor Cultural Wellington Santos “Irmão”, em sua sede na capital sergipana.
Nesta sexta, a Funcap vai exibir um show do cantor baiano Gilberto Gil, às 18h30, na Aperipê TV, canal 6.1.
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