As pessoas que morreram por causa do novo coronavírus (covid-19) não são apenas números, elas possuem histórias, famílias e lembranças. Para não deixar o nome das vítimas da pandemia somente como parte das estatísticas, professores e alunos da Universidade Federal de Sergipe (UFS) coletam relatos de familiares para um memorial aos 93 mortos pela covid-19 nos municípios sergipanos.
Em entrevista ao AjuNews, o organizador do projeto e professor de jornalismo, Vitor Braga, afirmou que o objetivo do Memorial Inumeráveis é valorizar, em forma de registros históricos, as vidas perdidas em função da pandemia do coronavírus no Brasil. “A ideia é entender que as pessoas não são apenas números. Por isso, a frase: Não há quem goste de ser número. Gente nasceu para existir em prosa”, disse o professor.
O memorial virtual foi criado pelo artista Edson Pavoni e lançado no dia 30 de abril, quando o país registrou o total de 5.901 mortes e 85.380 casos confirmados da doença. Na época, Sergipe somava 14 óbitos.
Na visão de Braga, a iniciativa deu a possibilidade de evidenciar a situação crítica do país por causa do aumento do número de infectados. “Com isto, podemos trazer o problema para que a população e as autoridades possam tomar atitudes urgentes para reduzir o efeito da pandemia”, acrescentou o professor.
Sensibilidade
De acordo com o professor, as histórias são construídas em um estilo parecido com a crônica, e os voluntários tentam retratar alguma marca na vida das vítimas.
“Procuramos ter o maior cuidado com a situação de fragilidades dos amigos e familiares, e tentamos construir as histórias que lembram o estilo de uma crônica. Sempre tentando retratar alguma marca na vida da pessoa que seja interessante de relatar. Pensamos, enfim, que cada um tem sua individualidade e que vale a pena contar essa história”, explica Braga.
Entre os relatos já publicados, o docente afirma que é difícil dizer qual foi a mais comovente, já que cada um possui suas características e importância na vida das pessoas.
A história do sergipano Gerino José dos Santos, 92 anos, faz parte do memorial. Nascido em Ribeirópolis, Agreste Central Sergipano, em 1927, ele morreu em Aracaju, vítima da covid-19. Uma das filhas de Gerino, Maria Genileide Santos, relatou a perda.
“Há duas semanas a covid-19 levou o meu pai. Eu não pensei que eu passaria por isso. Uma cena triste. A insuficiência respiratória… Horrível. Minha irmã e eu éramos as mais novas, então ele sempre tinha uma coisa para gente. Que saudade do meu pai”, lamenta Genileide.
Voluntários
Segundo Vítor Braga, a equipe de voluntários em Sergipe possui 13 pessoas, entre eles jornalistas e estudantes de jornalismo. Os alunos foram recrutados através de uma seleção da Universidade. Já os jornalistas, foram os colegas de profissão que já haviam apresentado um um olhar sensível para a abordagem jornalística desse momento.
Para a aluna do 4° período do curso de jornalismo, Maria Érica Xavier, integrar o grupo de voluntários do Memorial Inumeráveis é gratificante e se torna um ótimo momento para praticar a empatia, solidariedade e amor ao próximo. “É uma oportunidade de deixar lembrado o legado dessas vítimas. É um momento que vai ficar para história, então vamos eternizar as histórias das vítimas também”, afirmou Érica.
Segundo Braga, a ausência de divulgar e parcerias com órgãos que possam identificar os familiares fizeram com que a equipe recebesse poucas pessoas com o interesse de contar essas histórias. Apesar disso, ele acredita que essas dificuldades vão ser superadas quando a sociedade conhecer a proposta e se conscientizar sobre a importância de ter essa iniciativa.
“É uma experiência muito emocionante, de fato. O site mostra como cada pessoa teve sua importância no universo em que viveu. Ao mesmo tempo é muito triste, pois estamos lidando com perdas de pessoas que nos fazem lembrar nossos familiares e amigos. Nos fazem lembrar quem somos”, concluiu.
Sob supervisão de Peu Moraes
Siga o AjuNews e entre no nosso grupo de notícias de Aracaju.









