As vacinas do novo coronavírus não andam despertando o interesse da maioria dos brasileiros em buscas na internet, em comparação a procura por informações sobre potenciais tratamentos apontados como milagrosos e sem base científica, segundo um levantamento feito por pesquisadores da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e da Fundação Oswaldo Cruz na Bahia (Fiocruz-BA).
De acordo com o levantamento, o desestímulo ao assunto “vacina” está diretamente associado aos movimentos antivacina e ao negacionismo da ciência. Os dados foram coletados utilizando a ferramenta Google Trends, para comparar a quantidade de consultas relacionadas a vacinas do novo coronavírus na plataforma com os resultados de pesquisas pelos termos ivermectina, hidroxicloroquina e azitromicina.
Segundo os dados analisados entre 26 de fevereiro, quando houve a confirmação do primeiro caso da infecção no país, e 31 de dezembro do ano passado, os resultados para o volume de buscas do termo “vacina COVID” no país foram inferiores a 40, demonstrando uma baixa procura pelo assunto na internet. Os dados variam de 0 a 100, sendo 100 o valor que aponta pico nas buscas.
Durante esse período, a pesquisa aponta que houve o aumento no interesse pelo tema vacinas apenas em três momentos: durante a campanha de vacinação contra a gripe no mês de maio, aprovação dos ensaios clínicos da Pfizer/ BioNTech pela Anvisa em julho, e o anúncio da vacinação em larga escala do Governo do Estado de São Paulo em dezembro. Fora isso, a ivermectina e a azitromicina dominaram a procura na plataforma na maior parte do período de análise.
O coordenador do Laboratório de Patologia Investigativa da UFS, professor Paulo Ricardo Saquete Martins Filho, destaca que a cobertura vacinal da população brasileira tem caído consideravelmente nos últimos anos, como consequência da “propagação de notícias falsas na internet, o fortalecimento de correntes negacionistas e do movimento antivacina, o desconhecimento dos esquemas vacinais, além da falsa segurança da não necessidade do uso de uma vacina para a prevenção de doenças”.
Martins ainda lamenta os dados do levantamento que revelam o baixo nível de interesse dos brasileiros por informações sobre as vacinas contra o novo coronavírus, mesmo com a realização de campanhas de vacinação em inúmeros países.
“De forma contrastante, tem sido maior o volume de busca na internet por informações em relação aos medicamentos já citados, que se utilizados de forma indiscriminada podem levar a eventos adversos extremamente graves. Não basta termos uma vacina. É preciso criar um ambiente de estímulo para que ela seja utilizada pela população e tenhamos uma cobertura vacinal adequada para controlar esse vírus”, afirmou.
Para o professor do Departamento de Educação em Saúde da UFS, Diego Moura Tanajura, a situação que o país passa é “singular e preocupante”, pois o número de casos e de mortes vem aumentando dia após dia.
“Já temos em solo brasileiro quase 11 milhões de doses da vacina do Butantan. Além disso, estão previstas mais 2 milhões de doses da vacina da Fiocruz para este mês. Com esse total, conseguiremos iniciar a vacinação de quase 6,5 milhões de brasileiros. O Butantan já começou a produção da vacina na sua fábrica”, disse Tanajura.
Além dos professores Diego Tanajura e Paulo Martins, o estudo também foi desenvolvido em parceria com Kiyoshi Ferreira Fukutani, do Instituto Gonçalo Moniz, da Fiocruz-BA. O artigo foi submetido a uma revista científica internacional e aguarda publicação.
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