O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acordaram que equipes ministeriais dos dois países apresentarão, em cerca de 30 dias, uma proposta para resolver o impasse sobre tarifas de comércio. A orientação foi dada após reunião entre os dois líderes na Casa Branca, em Washington.
Encontro
O encontro entre Lula e Trump durou mais de três horas, incluindo um almoço oferecido pelo presidente norte-americano. Após a reunião, Lula informou que constituiu um grupo de trabalho e pediu que o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços do Brasil e o homólogo norte-americano se reúnam para fechar uma proposta em 30 dias.
Em declaração à imprensa, Lula disse: “Vamos colocar um grupo de trabalho e vamos permitir que esse moço [do Ministério] da Indústria e Comércio do Brasil, junto com o teu ministro do Comércio, sentem em 30 dias e apresentem para nós uma proposta para a gente poder bater o martelo. Quem estiver errado vai ceder. Se a gente tiver que ceder, nós vamos ceder”.
Trump, em postagem nas redes sociais, afirmou ter tratado “muitos tópicos” com Lula, incluindo questões comerciais e de tarifas, e descreveu o encontro como produtivo. “A reunião foi muito produtiva. Nossos representantes têm reuniões agendadas para discutir alguns pontos-chave. Outras reuniões serão agendadas nos próximos meses, conforme necessário”, escreveu o presidente norte-americano.
Tarifas e investigação
O objetivo do grupo será também tratar de uma investigação comercial aberta pelos Estados Unidos contra o Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA. No procedimento, os EUA acusam o Brasil de práticas de concorrência desleal, citando, entre outros pontos, o Pix, tarifas sobre etanol, desmatamento ilegal e proteção de propriedade intelectual.
O governo brasileiro não reconhece a legitimidade de instrumentos unilaterais como a Seção 301, alegando incompatibilidade com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). Em abril, técnicos brasileiros se reuniram nos EUA para fornecer esclarecimentos e defender o país contra as alegações.
contra o Brasil motivou negociações diplomáticas para buscar solução.
Lula afirmou que o tema do Pix não foi mencionado durante a reunião bilateral.
Crime organizado
Na coletiva, Lula anunciou que o governo brasileiro lançará um plano de combate ao crime organizado “na semana que vem” e informou que uma das frentes de cooperação com os EUA será a asfixia financeira de organizações criminosas transnacionais que atuam nos dois países.
“Precisamos destruir o potencial financeiro do crime organizado e das facções”, afirmou o presidente. Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, equipes da Receita Federal brasileira e da contraparte norte-americana deverão realizar operações conjuntas para bloquear contrabando de armas e outros produtos, inclusive o tráfico ilegal de drogas sintéticas vindas dos EUA.
Lula também ressaltou que a conversa não tratou especificamente de facções como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, tema que os EUA estudam classificar como grupos terroristas, o que, segundo o governo brasileiro, pode afetar a soberania.
Terras raras
Outro ponto da agenda foi o investimento em minerais críticos e terras raras. Lula informou a Trump sobre a aprovação, na quarta-feira (6), da lei que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE). O projeto prevê, entre outras medidas, a criação de um comitê para definir quais são esses minerais.
O Brasil tem uma reserva estimada em cerca de 21 milhões de toneladas de terras raras, a segunda maior já mapeada, atrás da China, que detém cerca de 44 milhões de toneladas, segundo dados citados pelo governo. Ainda assim, apenas cerca de 25% do território brasileiro teria sido mapeado, indicando potencial adicional.
foi citada como passo para atrair parcerias de processamento e evitar a mera exportação de matérias-primas.
Vistos, delegação e retorno
Lula entregou a Trump uma lista de brasileiros e familiares que continuam com restrições de vistos norte-americanos, segundo o presidente. Parte das suspensões teria sido suspensa, mas, conforme Lula, algumas pessoas seguem sancionadas.
Fizeram parte da comitiva brasileira os ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores); Wellington César (Justiça e Segurança Pública); Dario Durigan (Fazenda); Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços); Alexandre Silveira (Minas e Energia) e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
Histórico
A relação comercial entre Brasil e EUA tem enfrentado tensões desde 2025, com medidas protecionistas no governo norte-americano, incluindo a imposição inicial de tarifas de 25% sobre aço e alumínio. Em abril, os EUA aplicaram tarifas adicionais sobre diversos produtos brasileiros, sob argumento de falta de reciprocidade. Houve recuo parcial no fim de 2025 e início deste ano, com exclusões e redução para uma tarifa global temporária de cerca de 10%, mas setores como aço e alumínio ainda mantêm taxas elevadas.
A comitiva brasileira retorna a Brasília com previsão de chegada na sexta-feira (8).
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