O cerco imposto por grupos jihadistas a Bamako, capital do Mali, ameaça a estabilidade da Aliança dos Estados do Sahel (AES), formada por Mali, Níger e Burkina Faso. A ofensiva envolve organizações como o Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM), ligado à Al-Qaeda, e a Frente de Libertação do Azaward (FLA).
A AES surgiu após sucessivos golpes militares que levaram ao poder governos de perfil nacionalista, com forte apoio popular. Desde 2020, esses países vêm promovendo mudanças institucionais, políticas e econômicas que os distanciam da influência francesa na região. Para contextualizar essa transformação, ver reportagem sobre o tema aqui.
No dia 25 de abril, ataques coordenados do JNIM e da FLA resultaram na tomada de cidades e territórios no Mali, inclusive Kidal, e na morte do ministro da Defesa, Sadio Camara. Fontes locais relatam que os grupos estabeleceram bloqueios nas rotas de acesso a Bamako com objetivo de forçar a rendição do governo liderado por Assimi Goïta.
Impacto humanitário e estratégico
O pesquisador Eden Pereira Lopes da Silva, do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul (NIEAAS), afirmou que o governo maliano enfrenta dificuldades de abastecimento em razão do cerco, que já vinha se ampliando há meses. Segundo ele, a queda do Mali geraria um vácuo semelhante ao da Líbia, com reflexos negativos para Burkina Faso, Níger e outros países da África Ocidental, incluindo Gana e Costa do Marfim. A região da África Ocidental reúne mais de 420 milhões de habitantes e concentra importantes recursos naturais, ao mesmo tempo em que sofre com a presença de múltiplos grupos insurgentes.
A AES condenou os ataques, qualificando-os como atos “bárbaros e desumanos” e afirmando que carregam sinais de uma conspiração articulada por adversários da luta de libertação do Sahel.
Acusações contra a França e apoio russo
Em denúncia apresentada ao Conselho de Segurança da ONU em 2022, o governo do Mali acusou a França de apoiar e financiar grupos considerados terroristas, alegando que violações do espaço aéreo maliano teriam sido usadas para coletar informações e lançar armamentos. Paris rejeitou as acusações, classificando-as como infundadas, e recordou sua presença de nove anos na região no combate a grupos armados, período em que 59 soldados franceses foram mortos.
Em contrapartida, os Estados membros da AES têm recebido apoio militar da Rússia, em particular por meio do denominado Africa Korps, ligado ao grupo Wagner. O analista da ACLED para a região, Héni Nsaibia, avaliou que o envolvimento russo ainda não reverteu o avanço dos grupos paramilitares e observou que o anúncio do JNIM sobre um bloqueio total a Bamako tende a forçar as forças malianas a priorizarem a defesa da capital, em detrimento de outras áreas (texto do analista).
Motivações e atores locais
O JNIM defende a criação de um califado no Sahel baseado na Sharia e é considerado um braço da Al-Qaeda na região. A FLA reúne grupos tuaregues que buscam um Estado próprio para sua população; historicamente esses movimentos mantiveram laços com a antiga potência colonial, a França. Observadores relatam que, recentemente, a atuação de grupos tuaregues ganhou relevo também em função da reativação do comércio de armas e de redes de tráfico, incluindo tráfico de pessoas.
O jurista e analista geopolítico Hugo Albuquerque atribui parte das ofensivas a interesses ocidentais que contrariam os governos nacionalistas da região, afirmando que esses atores buscam retomar acesso a recursos naturais e projetos de infraestrutura. Já o presidente de Burkina Faso, Ibrahim Traoré, figura de destaque na AES, classifica o terrorismo no Sahel como expressão do imperialismo e defende que o combate a esses grupos é condição para o desenvolvimento nacional.
O avanço dos grupos jihadistas sobre Bamako e a reação das potências externas e regionais continuam a moldar a dinâmica de segurança no Sahel, sem definição imediata sobre desfechos políticos ou militares.
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