Os negociadores brasileiros mantêm ritmo intenso de reuniões com a Casa Branca para tentar barrar a sobretaxa de 25% sobre uma parte dos produtos nacionais. A avaliação em Brasília é de que o chamado tarifaço ganhou contornos políticos, pois ocorre em meio às eleições presidenciais de outubro de 2026 no Brasil, fator que, segundo interlocutores, pesa na estratégia de Washington.
O prazo para que o governo norte-americano decida se aplica ou não as novas alíquotas termina em 15 de julho. Até lá, técnicos do Ministério das Relações Exteriores, do Ministério da Fazenda e da Secretaria de Comércio Exterior têm encontros agendados com o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). A equipe brasileira tenta demonstrar que um acordo comercial amplo traria ganhos bilaterais superiores à adoção de tarifas adicionais.
Na quarta-feira, 24/06, o Itamaraty publicou em sua conta oficial na rede social X que as tarifas propostas “têm origem em tentativa de interferência externa na justiça brasileira”. O texto acrescentou que Brasília prossegue usando “os canais oficiais de interlocução” para rebater o que chama de argumento protecionista.
“O que Trump fez foi coisa desaforada”, declarou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, referindo-se à medida recomendada pelo USTR.
Pouco depois, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que os fundamentos apresentados pelos EUA “não são legítimos” e que o governo brasileiro está preparado para acionar mecanismos de solução de controvérsias, se necessário. Já no Supremo Tribunal Federal, os ministros condenaram o deputado Eduardo Bolsonaro por manifestações sobre o tema, em decisão unânime.
A investigação da USTR baseia-se na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA e alega “práticas desleais” do Brasil. Entre os pontos citados, estaria uma suposta fragilidade regulatória do Pix que, na visão norte-americana, favoreceria empresas locais em detrimento de grupos dos Estados Unidos. O Executivo brasileiro contesta, lembrando que a tarifa média sobre importações americanas é de 2,7%, patamar considerado baixo para sustentar a acusação de barreiras.
No entorno de Donald Trump, há quem defenda postergar qualquer concessão para evitar beneficiar Lula em pleno calendário eleitoral. Integrantes da administração republicana enxergam a disputa no Brasil como um dos “grandes testes” para a nova política de segurança nacional divulgada em dezembro de 2025, que prevê reforçar a influência de Washington na América Latina e conter a presença de potências externas, principalmente a China.
O contexto reforça a percepção de que o embate ultrapassa a esfera puramente comercial. Embora os Estados Unidos registrem superávit na balança bilateral, a elevação de tarifas poderia sinalizar postura dura a eleitores do meio-oeste industrial norte-americano, ao passo que um entendimento relâmpago com Brasília seria celebrado por exportadores agrícolas brasileiros em plena campanha eleitoral.
Diante desse tabuleiro, o governo brasileiro aposta em manter a conversa aberta e sustentar dados sobre competitividade e complementaridade das duas economias. Assessores de comércio exterior admitem que a chance de um consenso é “difícil, mas possível”. Caso o diálogo naufrague, o Brasil analisa recorrer a painéis na Organização Mundial do Comércio.
Enquanto isso, confederações empresariais dos dois países pressionam por previsibilidade. Setores como aço, calçados, suco de laranja e autopeças acompanham de perto cada movimentação em Washington, temendo perdas de mercado. Do lado norte-americano, fabricantes de maquinário temem retaliações brasileiras sobre peças e componentes.
A três semanas do prazo final, diplomatas classificam as conversas como “escalonadas e técnicas”, mas não ignoram o peso político. Se a decisão for pelo tarifaço, o impacto será sentido nos embarques ainda no segundo semestre. Se houver acordo, a expectativa é de assinatura de um memorando que abra caminho para uma agenda comercial mais ampla em 2027.
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