A técnica de enfermagem, Rosani Chagas Coutinho, 51 anos, mãe da universitária Joana Gabriela Coutinho, 21 anos, que foi drogada, agredida e desapareceu por cinco dias na Serra da Miaba, em São Domingos, no Agreste Central sergipano, desabafou em entrevista ao AjuNews sobre a crueldade sofrida pela filha. Durante a Operação O Poder da Esperança, que investiga o caso, seis homens foram indiciados e cinco foram presos, entre eles, dois argentinos.
“Eu quero que eles [acusados] voltem a ser seres humanos, pessoas, que eles se encontrem com eles mesmo como pessoa, ser gente. Eu quero que voltem a ter amor próprio. A justiça da terra tem que existir, mas a maior justiça… Que Deus conduza toda essa situação e que não haja injustiça. É uma falta de amor ao próximo… As pessoas se drogam… Eu trabalho com pessoas doentes e vejo tanta gente lutando para ter um pouco de saúde”, disse Rosani.
De acordo com as investigações conduzidas pela Polícia Civil, Joana conheceu Rayan Vinicius Lima da Silva por meio das redes sociais, 15 dias antes de fazer a trilha. Além dele, também foram presos e indiciados por sequestro, tentativa de homicídio, possibilidade de estupro e tráfico de drogas, Maycon Douglas Nunes, Lucas Diego Bustos e o argentino Alfredo Maria Ruiz. Outro envolvido, Domingos dos Santos, responde em liberdade por venda de bebida alucinógena, caracterizada como tráfico de drogas. O também argentino, Ruiz Matias, foi preso por tráfico de drogas.
À reportagem, a profissional da área de saúde relatou que a filha sofreu várias queimaduras nas pontas de todos os dedos das mãos, em alguns dedos dos pés, na nuca e nas costas após ter sido drogada. Segundo Rosani, a filha acredita que os agressores usaram madeira de palo santo aquecida para provocar as queimaduras, depois, eles colocavam droga nos locais.
A técnica de enfermagem disse também que foram retirados durante nove dias “muitos bichos” dos lugares machucados, alguns, de acordo com ela, “já estavam entrando na região da coluna”. A investigação apontou que ela sofreu rompimento do tímpano do ouvido esquerdo, pancada na nuca que deixou o osso exposto, dois ferimentos no rosto e foi encontrada com sangue na área da pélvis.
“Deram uma surra bem dada e depois arrastaram ela e jogaram lá. Ela tem alguns flashes de lembrança. Eles queimaram, parece que com palo santo, porque ela disse ouvir esse nome bem longe. Foi propositalmente. Muita crueldade, muita maldade com o ser humano. O delegado [Wilkson Vasco] quer entender o porquê de tanta maldade. Ele acha que até houve um ritual de magia negra. Porque o ser humano você não conhece… Mas está mais para possibilidade de algum ritual que ela tinha que morrer sendo comida por bicho ainda viva”, contou.
Questionada se Joana comentou sobre ter sofrido alguma violência sexual, Rosani disse que apesar de a perícia ter dado negativo, a filha “não lembra, mas não descarta. Estava muito machucada. Literalmente, ela não conseguia se movimentar muito”.
Segundo a técnica de enfermagem, Joana também contou que quando suspeitou das novas amizades tentou ir embora, mas eles impediram. Ao perceber que estava perdendo as lembranças, a universitária parou de comer e beber o que lhe era oferecido.
“Eles ficavam intimidando. ‘Quem vem aqui não sai mais, não’. Eles diziam que ela seria curada. Um dia, quando ela conseguiu acordar quatro da manhã, comeu uma beterraba que ela tinha deixado na mochila. Foi aquilo que deu uma clareza nela. Aí, para não dizer que iria embora, ela disse para ele ‘você não disse que a gente faria uma aventura?’ Ela falou da corda que levou para fazer slackline, mas eles sumiram com isso, com documento, com tudo dela”, detalhou e acrescentou que a filha não consegue nem recordar como chegou até o balneário, na Serra da Miaba.
Depois de ser abandonada no local, a mãe disse que nos dias da busca, a filha chegava a ouvir o barulho do helicóptero. “Mas estava sem força para andar. Alguns dias, ela disse que quando acordava, tentava andar de quatro, mas era muito difícil. Um dia, ela disse que já estava se entregando… Ela ainda pensou ‘Deus, será que aguento mais um dia?’. Só tinha urubu rondando ela, cada vez mais baixo”.
Para recuperação da jovem, a família teve um gasto elevado com tratamento médico e, por isso, fez uma vaquinha virtual para arrecadar R$ 15 mil, mas ultrapassou o valor pretendido e obteve R$ 16.215,00. Atualmente, Joana não toma mais antibióticos, apenas polivitamínicos e faz fisioterapia para voltar a andar.
“Eu nem esperava essa ajuda, mas graças a Deus eu tive muita. Já começou com ajuda dos dois moradores lá de São Domingos que saíram de suas casas e foram procurar minha filha, um ser humano que eles não conheciam, dois homens com o coração de Deus. A otorrino mandou esperar cicatrizar. Ela não está ouvindo direito, mas até então tudo é normal. A gente não sabe até onde os bichos comemoram na região do ouvido”, disse.
Apesar do trauma, Rosani conta que a filha tem reagido. “Ser como antes… Nunca mais. Mas eu tenho procurado dizer para ela que o importante é que ela está aqui, o quanto ela é preciosa. Pessoas que saíram de suas casas e trouxeram ela para gente. Eu sou adventista. Eu creio muito em Deus. Ele tem um propósito em tudo. A gente tem que enfrentar as coisas, mas no momento certo. Ela chora muito, chora bastante, fica irritada pois não consegue lembrar das coisas, entender… Não tem que entender, tem que administrar essa situação e na hora hora certa vai aparecer tudo”, concluiu.
Joana foi encontrada próxima à nascente de um rio, e na busca foi achado o livro de autoajuda “O Poder da Esperança”, que originou o nome da operação que investiga o caso. Ela desapareceu no dia 29 de setembro e foi resgatada no dia 4 de outubro.
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