O homem que esfaqueou Jair Bolsonaro durante a campanha presidencial em 2018, Adélio Bispo de Oliveira, afirmou que já cogitou aliar-se à direita e que participou de protestos contra o PT. A revelação foi dita em depoimentos à Polícia Federal e nas suas declarações aos forenses no presídio federal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Apesar disso, em suas redes sociais e em outros depoimentos prestados à PF, ele se declara como ativista de esquerda. As informações foram divulgadas pelo colunista do Uol, Amaury Ribeiro Jr., nesta quinta-feira (12).
Em depoimento à PF no dia 7 de setembro de 2018, um dia após o atentado, Adélio disse que a partir de 2005 participou de manifestações em Curitiba contra a corrupção ocorrida durante o governo de Lula. “Principalmente em relação aos fatos conhecidos como ‘mensalão'”, explicou ele à PF.
Adélio voltou a citar o episódio ao ser ouvido por psiquiatras em 7 de fevereiro de 2019 no presídio federal de Mato Grosso do Sul. O laudo psiquiátrico forense em questão levou a Justiça a considerar o crime praticado por ele como inimputável (que não pode ser punido em razão de o réu sofrer de doença mental).
Ao se juntar aos manifestantes contra o mensalão, ele revelou que, “carregava um caixão funerário, pintado de preto que ele mesmo mandou confeccionar, uma vez que não queriam lhe vender”. No mesmo depoimento, ele elogiou a postura do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa, relator do caso, no combate à corrupção. O laudo psiquiátrico forense encaminhado ao juiz da 3ª Vara Federal Criminal de Campo Grande diz que Adélio é portador de transtornos delirantes permanentes. “A raiz da doença é genética, reforçada por vivências traumáticas na infância”, dizem os psiquiatras que assinaram o laudo.
Candidatura a deputado federal
De acordo com Adélio, ele procurou o diretório do PSD em Uberaba (MG), em 2014, em busca de informações para se filiar. Mas a filiação acabou não se concretizando. Ele disse que resolveu procurar o PSD depois de pedir a desfiliação do PSOL da mesma cidade, que, segundo ele, não teria aceitado homologar a sua candidatura a deputado federal.
Complexo de inferioridade
No documento acessado pela coluna, os psiquiatras apontam um traço em comum nas manifestações contra o ‘mensalão’ e na tentativa de assassinato contra Bolsonaro. Nos dois casos, Adélio, órfão e isolado dos irmãos, tenta assumir um ar protagonista, de superioridade, na tentativa de combater um complexo de inferioridade. Esse transtorno teria começado ainda na infância quando foi obrigado a trabalhar aos oito anos de idade e a presenciar os maus-tratos que o pai, alcoólatra, praticava contra a mãe.
Versões diferentes
Ainda segundo a publicação, as divergências que ele teria com o então candidato Bolsonaro mudam a cada depoimento prestado. “Me considero um defensor de esquerda moderada, ao passo que Bolsonaro defende ideologia oposta, que defende o extermínio de homossexuais, pobres e índios”, disse no depoimento prestado do dia 7 de setembro de 2018 à PF. Ele critica ainda, nesse depoimento, a política de privatização de estatais defendida pelo então candidato do PSL.
Dez dias depois de ser interrogado novamente pelo delegado na Penitenciária Federal de Campo Grande, Adélio disse que as divergências contra Bolsonaro se “devem sobretudo ao discurso racista e antissemita do candidato, que é contra o povo árabe”. Em depoimento aos psiquiatras, Adélio dá outra versão do principal motivo que o teria levado a tentar cometer o crime: o candidato estaria ligado “às maçonarias”. A obsessão pela maçonaria é demonstrada frequentemente pelo detento.
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