Aracaju será a sede, de 16 a 20 de novembro, do 20º Congresso Brasileiro de Hansenologia, apontado como o maior encontro das Américas dedicado à hanseníase. Nesta edição, profissionais de áreas além da medicina — como Terapia Familiar, Jornalismo e Advocacia — estarão presentes para discutir como avanços científicos podem se transformar em melhorias concretas na vida dos pacientes e na atuação dos serviços públicos de saúde.
Com o tema “Ciência e Inovação aplicadas à realidade do território”, o congresso parte da ideia de que não basta produzir conhecimento: é preciso garantir que ele chegue aos profissionais que atendem a população, oriente decisões das autoridades de saúde, permita identificar a doença mais cedo, tratar adequadamente e prevenir incapacidades físicas e exclusão social.
“Precisamos aproximar a ciência da realidade de quem está na ponta do atendimento e, principalmente, da pessoa que recebe o diagnóstico. Cada avanço científico é uma esperança para conferir dignidade à população, evitar sequelas, melhorar o tratamento, reduzir o sofrimento e devolver qualidade de vida ao paciente”, explica Marco Andrey Cipriani Frade, presidente da SBH.
O que a ciência pode mudar na vida do paciente?
- Diagnóstico precoce: A hanseníase pode ser identificada nos estágios iniciais, antes de comprometer os nervos periféricos ou apresentar sinais evidentes na pele. Especialistas vão debater formas de aprimorar a avaliação clínica e o uso da ultrassonografia para observar alterações nos nervos antes do surgimento de sequelas. O Brasil já registra avanços no diagnóstico por ultrassom de nervos.
- Inteligência artificial e novas tecnologias: O congresso discutirá o uso ético da inteligência artificial na pesquisa e no rastreamento de casos. Essas ferramentas podem organizar informações, identificar padrões e apoiar o trabalho dos profissionais de saúde, sem substituir a avaliação clínica.
- Resistência aos medicamentos e recidivas: Pesquisadores vão abordar resistência medicamentosa, recidivas e dúvidas sobre atividade da doença após o tratamento, com foco em orientar condutas, investigar resposta terapêutica e evitar lacunas na assistência ao paciente.
- Endemia oculta: Uma região com poucos diagnósticos registrados não é necessariamente livre de transmissão. A falta de informação, dificuldades de acesso e insuficiência de busca ativa podem manter pessoas doentes sem diagnóstico. Serão debatidas estratégias para aprimorar vigilância epidemiológica e fortalecer a Atenção Primária à Saúde.
- Preconceito e saúde mental: O estigma pode levar pessoas a ocultar o diagnóstico, enfrentar discriminação e sofrer prejuízos em relações familiares, escolares e profissionais. O impacto emocional e social da hanseníase estará entre os temas centrais.
O Brasil concentra cerca de 93% dos novos casos registrados nas Américas e 13% dos casos mundiais. Apesar de ser uma doença com cura comprovada e tratamento oferecido gratuitamente pelo SUS, a hanseníase ainda representa um desafio de saúde pública, especialmente porque o diagnóstico pode demorar anos e o comprometimento dos nervos pode gerar sequelas permanentes.
Ao reunir debates sobre diagnóstico, tratamento, tecnologia, prevenção de sequelas e enfrentamento do preconceito, o congresso reforça que a hanseníase não é tema restrito a consultórios ou laboratórios: envolve informação, direitos humanos, educação e políticas públicas. O objetivo é tornar o conhecimento acessível para profissionais e população, reduzir o desdiagnóstico e fortalecer a capacidade de resposta dos serviços de saúde.
“Esta é uma oportunidade de transformar conhecimento em ações concretas como melhorar a capacidade de resposta dos serviços de saúde, apoiar decisões das autoridades públicas e não somente colocar o paciente no centro das estratégias de enfrentamento da doença, mas de informá-lo para que seja um multiplicador de informações. O desconhecimento gera o preconceito que tem peso significativo no combate à endemia oculta, na adesão ao tratamento e até no diagnóstico – o Brasil ainda enfrenta desdiagnóstico da doença feito por profissionais que ainda não sabem que a hanseníase está presente”, afirma Cipriani Frade, hansenologista e presidente da SBH.
O encontro pretende, portanto, transformar evidências científicas em práticas que facilitem o diagnóstico precoce, melhorem o acompanhamento e protejam os direitos e a dignidade das pessoas afetadas pela hanseníase.
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