Erleyvaldo Bispo, de Lagarto, e a advogada recém-formada Laura de Azevedo Viana foram selecionados para a Conferência da ONU sobre Água em Abu Dhabi. O evento será de 8 a 10 de dezembro e visa acelerar o ODS 6.
Em cerca de dois meses, o ativista Erleyvaldo Bispo vai deixar Lagarto, no agreste de Sergipe, para percorrer cerca de 10,5 mil quilômetros até Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Ele e a advogada recém-formada Laura de Azevedo Viana são os dois brasileiros entre um grupo de 100 jovens de 75 países selecionados na última terça-feira (29) para participar da Conferência da Organização das Nações Unidas sobre a Água, que será realizada entre 8 e 10 de dezembro.
O encontro terá foco em acelerar a implementação do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS 6), voltado à disponibilidade e à gestão sustentável da água e do saneamento para todos. São esperadas delegações de governos, organizações internacionais, representantes da sociedade civil, do setor privado e pesquisadores que atuam em questões hídricas.
Os 100 jovens foram escolhidos pelo programa Global Youth Water Envoys, promovido pelo Centro da Juventude Árabe (AYC), organização sediada em Abu Dhabi. O programa selecionou jovens com relação direta ao acesso à água — por meio de ativismo, vivência ou programas comunitários — entre cerca de 2 mil candidaturas. A partir de agora, os escolhidos passarão por um período de dois meses de preparação para inserir as prioridades da juventude e as realidades locais no diálogo global. A intenção dos organizadores é que a juventude não seja mera espectadora, mas participe diretamente nos resultados da conferência.
Em comum, Erleyvaldo e Laura trazem experiências vividas com a falta de água potável. Erleyvaldo, 28 anos, nasceu e cresceu em uma região em que comunidades enfrentavam poços secos, dependência de carros-pipa e a incerteza pela chegada da chuva. Sua vivência motivou a criação da ONG Águas Resilientes, que desenvolve estratégias para ampliar o acesso à água potável. Antes de saber que seria selecionado, em junho ele organizou um evento preparatório no Rio de Janeiro.
“Por ter vivido a falta d’água, acredito que isso me coloca em uma posição de pessoa que, de fato, valoriza a água”
Erleyvaldo afirma que irá a Abu Dhabi para representar mais do que a si mesmo e para levar demandas de comunidades brasileiras.
“Vou levar a voz de milhares de brasileiros que acordam todos os dias sem saber se terão água para beber”
Entre as preocupações que ele pretende levar à conferência estão impactos imediatos, como o Super El Niño, que pode agravar secas em determinadas regiões, e questões de médio e longo prazo, como o futuro da Amazônia, cuja condição pode influenciar a disponibilidade hídrica.
“Existe uma possibilidade de colapso da Amazônia a partir de 2050”
Erleyvaldo antecipa que chegará ao encontro com o objetivo de mostrar a relação entre acesso à água e soberania, e defende investimentos em projetos voltados para o acesso hídrico, sobretudo no Sul Global — América Latina, África e Ásia.
“Falar sobre água é falar sobre soberania nacional”
“Minha grande bandeira lá é exatamente trazer luz para o investimento em projetos e iniciativas voltadas à questão do acesso à água”
Laura de Azevedo Viana, 23 anos, é pesquisadora vinculada ao Instituto Brasileiro de Direito do Mar, com atuação em governança dos oceanos e racismo ambiental. Moradora de Cajazeiras, bairro periférico de Salvador, ela relata episódios em que o fornecimento foi interrompido por dias ou semanas, situação que, segundo ela, não ocorre em bairros mais favorecidos.
“Já passei por diversas situações em que o fornecimento de água era cortado por dias, já chegou a durar semanas, um bairro inteiro sem água”
“Isso não acontece em bairros nobres de Salvador, ocupados por pessoas que possuem melhores condições financeiras e são brancas”
Laura aposta na combinação entre ativismo e pesquisa científica para expor desigualdades e influenciar políticas públicas e o direito. Ela aponta comunidades indígenas, quilombolas e costeiras como as primeiras afetadas pela degradação da água e defende participação juvenil contínua nas instâncias de decisão.
“A pesquisa ajuda a comprovar essa desigualdade, e quem escreve sobre esses temas hoje influencia o que o direito dirá amanhã”
“Minha principal bandeira é a proteção dessas comunidades, junto com a participação verdadeira da juventude. Precisamos de um espaço institucional permanente, e não apenas de eventos simbólicos, para sermos ouvidos”
Nos próximos dois meses, os representantes participarão de atividades preparatórias antes de se apresentarem na conferência internacional em dezembro, quando a expectativa é que as vozes juvenis contribuam para os resultados e compromissos sobre a gestão da água e do saneamento.
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