Ninguém esperava que o Dia das Mães, neste domingo (10), soasse tão estranho como agora. Em tempos de crise, claro que as interações sociais adquiriram uma nova dinâmica, até mesmo dentro dos lares. Em datas comemorativas isso fica mais evidente.Almoços rodeados da família, casa cheia e abraços são práticas não recomendadas em meio a pandemia do novo coronavírus (covid-19). Diagnosticada com a doença, a enfermeira e mãe, Cristiane Neves, de 42 anos, relatou ao AjuNews como o distanciamento social dentro de casa alterou a rotina dela com o filho, Enzo, de 13 anos.
Antes de receber a confirmação do resultado, no último sábado (2), a enfermeira tentou proteger o filho, deixando-o com a avó, que possui 66 anos e está no grupo de risco, mas Enzo não se adaptou à distância da mãe. “Por conta da teimosia dele, de ficar muito tempo longe eu acabei deixando ele comigo. Porque ficou difícil de controlar a permanência lá”. Quando voltou para a casa da mãe e a via chegar dos plantões gritava: “Eita mainha já chegou cheia de covid, corra para o banheiro”.
Cristiane trabalha há três anos na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal do Hospital e Maternidade Santa Isabel, no bairro Santo Antônio, Zona Norte de Aracaju, e desde do surgimento dos primeiros casos de covid-19 em Sergipe, tinha duas preocupações. “Eu chegava em casa e o meu receio principal não era nem sobre estar contaminada. Era a possibilidade de contaminar meu filho, minha mãe ou até mesmo os bebês da UTI que trabalho. Lá são 30 recém- nascidos, imagina contaminar eles, que já possuem imunidade baixa.”
Cumprindo quarentena enquanto se recupera da doença, a mãe relata que após receber a notícia, vê o filho poucas vezes. “Quando eu contei ele correu para o quarto e se trancou. Tá difícil de vê-lo. Ele tá com medo. Moramos na mesma casa e todo mundo tá trancado no seu quarto. É muito triste você ter que se distanciar do seu filho dentro da sua própria casa”, completa a enfermeira, que além do filho, mora com o esposo, Edcarlos, que também é enfermeiro.
Quanto a sensação de distanciamento físico provocado pelo isolamento, a enfermeira lamenta: “É uma tristeza. Porque filho é um sentimento que a gente não explica. Eu quero abraçar, eu quero estar perto, mas eu sei que eu não posso chegar perto dele e tenho que me segurar em relação a isso. Mas o sentimento que fica é o quanto essa doença afasta a gente, mesmo estando todo mundo no mesmo espaço. Eu bato na porta do quarto dele e pergunto se teve algum sintoma, se tá tudo bem”.
Sobre a comemoração no Dia da Mães, Cristiane afirma que a confraternização, que sempre foi realizada na casa da mãe na companhia de familiares, será adaptada para o formato on line. “Esse vai ser um ano bem estranho. O jeito vai ser fazer uma videochamada com todo mundo pra amenizar a saudade e passar o carinho tão importante nessa data”.
Após os 14 dias necessários para recuperação, a enfermeira só espera o retorno da rotina: “Se eu já abraçava agora vou abraçar em dobro, acho que essa pandemia veio para resinificar esse cuidado com o outro”, finaliza.
O relato de Cristiane é só um dentre as mais de 1400 pessoas que enfrentam a doença em nosso estado. Milhares de filhos e/ ou mães brasileiras irão passar este domingo distantes um do outro. A presença física não diminui o carinho da relação, nesse momento, estar longe é um ato de amor.
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