O embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam Ghadiri, afirmou nesta segunda-feira (30) que a população iraniana tem ido às ruas para exigir que Teerã rejeite as “promessas de negociação” feitas pelos Estados Unidos. Em entrevista à Agência Brasil, o diplomata declarou que o presidente norte-americano, Donald Trump, “negocia consigo mesmo” e que a ideia de um acordo entre os dois países “virou piada mundial”.
Na semana passada, Trump voltou a dizer que conversava com um suposto “novo regime” no Irã e ameaçou atacar instalações de energia elétrica e de petróleo caso o Estreito de Ormuz não fosse reaberto.
“A opinião pública no Irã está pressionando seriamente o governo e o instando a não se deixar enganar pelas negociações da outra parte”, disse Ghadiri.
Guerras em meio a negociações
O embaixador lembrou que, em junho de 2025, enquanto iranianos e norte-americanos discutiam um acordo, Teerã foi atacado, dando início a uma guerra de 12 dias. Segundo ele, situação semelhante se repetiu recentemente, dois dias antes da fase final de novas tratativas mediadas por Omã.
“Essas duas guerras mostram que o outro lado busca um círculo de guerra, cessar-fogo e novamente guerra. Nenhum país independente aceitaria essa lógica”, afirmou.
De acordo com Ghadiri, a morte do líder supremo Ali Khamenei, em fevereiro, e a ascensão de seu filho, Seyyed Mojtaba Khamenei, reforçaram a determinação iraniana de responder a ataques “para que o agressor deixe de repetir essas ações”.
Impacto sobre Israel e princípios de retaliação
Questionado sobre a eficácia dos ataques iranianos contra Israel, o diplomata disse que Tel Aviv sofreu “danos significativos”, mas ressaltou que a resposta do Irã é “controlada” e segue princípios religiosos que proíbem o uso de armas como as químicas empregadas por Saddam Hussein na década de 1980.
“Esses são princípios humanos e religiosos nos quais nos baseamos. Neste caso, nossos inimigos são muito sortudos”, declarou.
Universidades na mira
Sobre denúncias de que universidades iranianas abrigariam projetos militares, Ghadiri citou a antiga Universidade Jodhichapur, criada entre 1,8 mil e 2 mil anos atrás, e acusou Israel de ter histórico de assassinatos de cientistas pelo mundo.
“As ações cegas do regime sionista colocam entre seus alvos residências civis, universidades e fábricas. Isso mostra seu desprezo pelas ciências”, disse.
Situação interna após um mês de conflito
Segundo o embaixador, após 31 dias de guerra, a população continua mobilizada nas ruas, mesmo sob chuva e neve, em defesa da soberania nacional. Ele afirmou que o país, sob sanções há 47 anos, mantém avanços científicos e uma “civilização com raízes de 7 mil anos”.
Mídia brasileira e grupos aliados
Ghadiri elogiou a cobertura da imprensa brasileira, mas criticou editorial do jornal Estado de S. Paulo intitulado “Ninguém vai chorar pelo Irã”, por, segundo ele, incentivar ataques a civis sem oferecer espaço para contraponto.
Ele também rechaçou a ideia de que grupos como Hezbollah e Houthis sejam “proxies” de Teerã.
“Precisamos investigar se os EUA são proxy do regime sionista ou se o regime sionista é proxy dos EUA. Esses grupos são independentes e lutam por seus próprios interesses nacionais”, concluiu.
Fonte: Agência Brasil
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