Usar farda, muitas vezes, é visto pela sociedade como vestir uma armadura. Para grande parte da população, o policial é o herói indestrutível que corre na direção do perigo enquanto todos fogem. Mas por trás do colete, da farda e da função há seres humanos expostos diariamente a riscos extremos, pressão constante, jornadas exaustivas e situações que deixam marcas emocionais profundas. Em Sergipe, reconhecer essa humanidade tem sido o ponto de partida para a consolidação de políticas públicas de acolhimento psicológico e cuidado integral aos profissionais da segurança. No meio dessas ações está o Centro Integrado de Referência e Atenção à Saúde do Trabalhador da Segurança Pública (Cirast), vinculado à Secretaria de Estado Segurança Pública (SSP/SE), que tem ampliado o atendimento e fortalecido mecanismos permanentes de suporte emocional.
A diretora do Cirast, Iolanda Aragão, policial civil, assistente social e terapeuta biointegrativa, explica que o centro nasceu como um espaço voltado principalmente a casos graves ligados ao uso de álcool e outras drogas. Com o tempo, a equipe percebeu a necessidade de atuar antes do adoecimento avançado. “O trabalho ganhou visibilidade nacional e contribuiu para que o Governo Federal incluísse na Lei do Sistema Único de Segurança Pública (Susp) recursos destinados exclusivamente à saúde desses trabalhadores. Hoje, somos o estado com o menor índice de violência no país, mas, também, somos referência nacional em cuidado com a saúde dos profissionais da segurança pública”, destaca.
Atendimentos
No espaço, os trabalhadores contam com atendimentos em psicologia, fisioterapia, medicina, terapias integrativas, além de clínicas conveniadas que oferecem especialidades como psiquiatria e nutrição. Em 2023, o número de atendimentos cresceu expressivamente, impulsionado pela procura espontânea dos servidores, um sinal, segundo Iolanda, de confiança consolidada no serviço. “Já ultrapassamos 30 mil atendimentos desde 2023. Os mais procurados são fisioterapia e psicologia, o que nos alegra, pois evidencia o avanço na compreensão do cuidado com a saúde mental”, destaca a diretora, que informa que em breve o Cirast ganhará um novo espaço, ainda mais amplo, com maior capacidade de atendimento e acolhimentos aos profissionais.
Segundo a diretora do centro, o cuidado emocional não é um luxo, mas uma questão de sobrevivência na área da segurança pública. “O Anuário de Segurança Pública de 2024 trouxe um dado alarmante: morrem mais policiais por suicídio do que pelo exercício da função. Isso não pode ser ignorado. Aqui, trabalhamos exatamente para cuidar desse ser humano antes do profissional”, afirma Iolanda.
Um dos profissionais atuantes no espaço é o psicólogo Eliel Lima. Segundo ele, a segurança pública também é feita de saúde mental, de cuidado integral. “Essa é a proposta do Cirast: olhar o ser humano como um todo. Quando cuidamos desse sujeito de maneira plena, ele tem condições de oferecer um serviço melhor, e isso se reflete tanto na vida dele quanto na da sociedade”, enfatiza.
Rotina policial
A compreensão sobre a importância da saúde mental também aparece nos relatos de quem está na linha de frente. A policial civil Daniela Souza Santana, há nove anos e meio na corporação e frequentadora do Cirast, destaca que o equilíbrio emocional é condição necessária para prestar um serviço de qualidade. “A saúde mental é essencial para qualquer profissão, mas na segurança pública ela é determinante, porque lidamos diariamente com vidas, a nossa e a da sociedade”, pontua.
Daniela revela que a terapia dentro da própria instituição transformou sua vida. “Já utilizo os atendimentos há cerca de dois anos. Uso tudo: psicologia, fisioterapia, pilates, nutricionista, atendimento médico. A minha terapia mudou completamente minha vida, minha saúde mental deu um salto”, declara.
Outro exemplo da importância do Cirast está na história de Solange de Assunção Oliveira, viúva de policial, que encontrou no centro um espaço de acolhimento em um momento de profunda fragilidade. “Depois que comecei a frequentar, fiquei muito mais tranquila, minha cabeça melhorou, meu dia a dia mudou. Se não fosse isso, talvez eu nem estivesse mais aqui. O Cirast me salvou”, afirma.
As ações do Cirast envolvem não apenas apoio psicológico tradicional, mas, também, práticas integrativas que buscam harmonizar mente e corpo. A pedagoga Maria Angélica Costa utiliza as Barras de Access como ferramenta terapêutica. “Depois da sessão, a pessoa entra em contato com sua essência e tudo começa a se regularizar: pressão arterial, sono e ansiedade. O trabalho do Cirast tem transformado vidas tanto de trabalhadores quanto de suas famílias”, frisa.
Avanço estrutural
A ampliação de serviços, a construção da nova sede do Cirast e a articulação entre as forças de segurança mostram um avanço importante rumo a uma política de cuidado contínuo, estruturada e humanizada. Para Iolanda Aragão, a consolidação dessa política depende, agora, de novos instrumentos de diagnóstico e da institucionalização permanente das equipes. “Estamos avançando, trabalhando para fortalecer essa política e mostrar a importância da manutenção dos recursos. Nosso objetivo é garantir um cuidado contínuo, qualificado e institucionalizado, porque antes de ser policial, esse trabalhador é um ser humano”, ressalta.
Mulheres da segurança
Além do atendimento no Cirast, os profissionais também recebem acolhimento por meio da Associação Integrada de Mulheres da Segurança Pública (Asimusep-SE), que realiza rodas de conversa e atividades voltadas às demandas específicas vividas por mulheres da área, como sobrecarga emocional, equilíbrio entre vida pessoal e trabalho e desafios de ambientes majoritariamente masculinos.
Neste contexto, a presidente da Asimusep, Svetlana Barbosa da Silva, detalha o papel da entidade. Ela destaca as rodas terapêuticas mensais, a articulação com os núcleos de saúde das instituições e a ação conjunta com o Cirast e outros setores psicossociais, reforçam o apoio à saúde integral das profissionais da segurança pública.
“São espaços para troca, escuta e reflexão sobre temas como depressão, ansiedade, sexualidade e questões do cotidiano da mulher na segurança pública. Uma fala inspira a outra. Muitas mulheres chegam fragilizadas e encontram no grupo um laboratório de apoio mútuo que fortalece a autoestima, a segurança e o bem-estar emocional, muitas se reconhecem nos relatos e percebem que não estão sozinhas. As terapias individuais permanecem, pois algumas questões precisam de um atendimento mais íntimo. Essa rede se fortalece a cada encontro, formando mulheres mais firmes, empoderadas, proativas e saudáveis para exercer suas funções”, evidencia.
Experiências compartilhadas
As experiências compartilhadas pelas profissionais mostram que a saúde mental deixou de ser tabu e passou a ser percebida como necessidade urgente. A primeira-tenente Elisângela Bonifácio, há 32 anos na PM, reforça a importância dessa atenção. “Sou uma das pioneiras, uma das primeiras mulheres soldado do estado de Sergipe. A profissão já é, por si só, um grande desafio, e sendo mulher esses desafios se multiplicam. Além do trabalho policial, muitas são mães, esposas, donas de casa e ainda precisam estar emocionalmente preparadas para lidar com violência, risco constante e demandas intensas. Costumo dizer que, quando colocamos a farda, é como se acreditássemos que temos uma armadura ou um superpoder, mas não temos. Somos humanas”, considera.
A primeira-tenente reforça a necessidade de equilíbrio emocional para proteger colegas, cidadãos e suas próprias famílias. “Cuidar da saúde mental é fundamental. O corpo e a mente precisam estar preparados para que possamos prestar um serviço de qualidade”, acrescenta.
Na mesma linha, a sargento Claudenice Barbosa Lima Poderoso, que completa 20 anos de corporação em 2025, reforça que o cuidado com a saúde mental é primordial, especialmente para quem lida diariamente com situações de estresse. “Quando entrei, há duas décadas, praticamente não existia essa preocupação. Hoje, vemos avanços significativos. O policial não é apenas policial: é pai, mãe, filho. As rodas terapêuticas mensais ajudam a equilibrar emoções e fortalecer vínculos. Além disso, terapias individuais e práticas como pilates integram saúde física e mental. O Programa de Bem-Estar da Segurança Pública tem sido muito benéfico. Muitos colegas têm recorrido a ele e os resultados são extremamente positivos”, conclui.
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