A proximidade da Copa do Mundo de 2026 acende um sinal amarelo para especialistas em defesa do consumidor. O Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) adverte que o torneio, com início em 11/06, deve ampliar significativamente a exposição da população brasileira à propaganda de apostas esportivas online, conhecidas como bets.
“Eventos esportivos de grande mobilização emocional tendem a ampliar a exposição da população à publicidade de bets, atingindo não apenas apostadores habituais, mas também consumidores ocasionais e pessoas em situação de vulnerabilidade”, destaca o Idec.
O alerta veio após a divulgação de um estudo da Softswiss, multinacional que desenvolve tecnologias para plataformas de jogos eletrônicos. O levantamento indica que o volume global de apostas esportivas poderá crescer 50% em relação à Copa de 2022, saltando de US$ 35 bilhões para US$ 52 bilhões.
Entre os fatores listados pela Softswiss estão a ampliação do formato da competição—agora com 48 seleções e 104 partidas—, o avanço dos mercados regulados e as melhorias na experiência de apostas via celular. A empresa ressalta que a Copa tem o poder único de atrair tanto apostadores frequentes quanto ocasionais.
“Os principais motores desse crescimento são o formato ampliado do torneio, o avanço dos mercados regulamentados e a experiência de apostas móveis”, afirma Alexander Kamenetsky, diretor de Operações da Softswiss.
Projeções do setor apontam que os brasileiros poderão representar cerca de 10% desse volume mundial. Esse percentual tende a aumentar caso a Seleção chegue às fases decisivas.
Dados do Placar das Bets, ferramenta da empresa de análise Klavi baseada em informações do Open Finance, revelam que, entre 09/06 e 25/06, foram gastos R$ 530,21 milhões em sites de apostas no país. O desembolso médio por usuário passou de R$ 188 para R$ 242 no mesmo período, sinalizando tendência de alta.
Para o Idec, o cenário reforça preocupações sobre os impactos sociais das apostas, legalizadas em 2018 e regulamentadas em 2023. O instituto entende que as regras atuais de publicidade são insuficientes e defende a revisão das leis que autorizaram a atividade.
“O que se observa é uma naturalização crescente das apostas, impulsionada por campanhas massivas de influenciadores, atletas e clubes que apresentam o jogo como simples entretenimento”, critica o Idec.
O professor Ahmed El Khatib, doutor em Finanças e docente da Unifesp, lembra que grandes eventos esportivos intensificam emoções e podem levar até quem não costuma apostar a arriscar dinheiro.
“Cada partida gera centenas de combinações, do número de cartões aos escanteios. Tudo vira aposta, multiplicando o dinheiro movimentado”, explica o pesquisador.
Ele também aponta o fenômeno conhecido como ilusão de controle: torcedores superestimam o conhecimento sobre seus times e acreditam prever resultados, o que pode levar a dívidas e problemas de saúde mental.
Entre janeiro e março de 2023, a Confederação Nacional do Comércio estimou que a inadimplência relacionada a jogos e apostas retirou R$ 143 bilhões da economia. Para o Idec, números como esses reforçam a necessidade de políticas públicas que coíbam a publicidade excessiva e protejam consumidores, especialmente durante a Copa, quando a paixão pelo futebol promete atingir seu ponto máximo.
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