A abertura de investigação pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), em 25/06, para apurar possíveis irregularidades na divulgação de apostas esportivas durante as transmissões da CazéTV nos jogos da Copa do Mundo de 2026, reacendeu a discussão sobre os limites entre conteúdo editorial, entretenimento e publicidade em ambientes digitais.
A CazéTV, fundada em 2022 pela produtora LiveMode em parceria com o streamer Casimiro Miguel, rapidamente transformou-se em uma potência de audiência. O canal é a única plataforma que vai transmitir os 104 jogos do torneio, disputando espaço com emissoras tradicionais como Rede Globo e SBT. Esse formato, que mistura narração descontraída, interação em tempo real e ações de merchandising, atraiu patrocinadores de todos os segmentos, mas, segundo especialistas, exige cuidados adicionais quando envolve apostas.
Na investigação, a Senacon examina a prática de narradores e comentaristas que, durante as partidas e nos pré-jogos, indicaram odds e deram dicas explícitas de como apostar. Um monitoramento do portal ICL Notícias analisou 48 transmissões e registrou 74 sugestões de palpites; 61% das previsões não se concretizaram. As recomendações partiram de três casas anunciantes: Bet365, Betnacional e KTO.
“Essa tentativa de tornar a aposta parte natural da conversa funciona para determinados produtos, mas é delicada quando tratamos de um problema de saúde coletiva, que afeta a finança, o corpo e a mente”, avaliou Anderson Santos, professor da Universidade Federal de Alagoas e coordenador do Observatório das Transmissões de Futebol.
Segundo Santos, o estilo “mesa de bar” da CazéTV prioriza engajamento e não segue a separação rígida entre editorial e comercial que vigora na TV aberta. Janaine Aires, professora da Escola de Comunicação da UFRJ, concorda que a web se tornou zona cinzenta para publicidade.
“Quando há brechas, o mercado migra para plataformas que não respondem às mesmas regras do meio tradicional, estabelecendo normas próprias até que surja um freio regulatório”, observou Aires.
Estudo divulgado em junho pela Agência Macfor registrou mais de 18 milhões de buscas pelo termo “bet” no país no mês anterior ao início da Copa. Seis em cada dez brasileiros declararam intenção de apostar, e o interesse pelo tema cresceu 496% nos últimos cinco anos. O Ministério da Fazenda estimou lucro bruto de R$ 37 bilhões para o setor em 2025.
O cenário brasileiro contrasta com mercados maduros: no Reino Unido, o interesse por apostas caiu 19,6%; em Portugal, 53%; e na Espanha, 12,6%. Já a Argentina apontou avanço de 268,8%. Para pesquisadores, esses índices reforçam a urgência de mecanismos que protejam consumidores locais, especialmente jovens, de práticas consideradas agressivas.
A Lei nº 14.205/2021 (Lei do Mandante) impulsionou o surgimento de novos players de mídia ao permitir que clubes negociem direitos de transmissão individualmente. Com isso, plataformas digitais como a CazéTV ganharam espaço para testar formatos híbridos de cobertura esportiva. Apesar do sucesso, o caso investigado pela Senacon expõe lacunas na fiscalização: órgãos reguladores ainda buscam parâmetros para avaliar mensagens publicitárias integradas ao entretenimento, sem intervalos comerciais claros.
Enquanto o processo segue em análise, a discussão coloca em xeque a responsabilidade social das plataformas de streaming esportivo. Especialistas defendem a elaboração de diretrizes específicas para publicidade de apostas no ambiente online, capazes de equilibrar liberdade de formato, sustentabilidade econômica e proteção ao público.
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