O ator Marcius Melhem vem sendo alvo de denúncias de assédio sexual e um mistério ronda os corredores do departamento de humor da TV Globo desde agosto, pois ele foi desligado da emissora sem qualquer explicação. Segundo informações da Folha de São Paulo, em dezembro de 2019, Melhem tinha sido acusado de assédio sexual pela atriz Dani Calabresa, que procurou o compliance da emissora para fazer a denúncia. Depois dela, outras mulheres buscaram o mesmo canal para relatar fatos semelhantes.
Segundo o jornal, as mulheres descreveram tentativas de as agarrar à força, além de envio de mensagens inconvenientes, e ambiente tóxico de trabalho. Contudo, na nota em que comunicava o desligamento de Melhem, a emissora não falou sobre nenhuma das denúncias e afirmou que ali se encerrava uma parceria de sucesso. Por conta disso, segundo a Folha de São Paulo, as mulheres ficaram insatisfeitas e se organizaram para reclamar sobre o desfecho com a direção da emissora. O apoio a elas cresceu, e um grupo de mais de 30 funcionários ou parceiros da empresa participou de reuniões internas na empresa sobre esse assunto.
Durante dois meses, a Folha acompanhou o caso e conversou com quatro atrizes que se dizem vítimas de assédio e que formalizaram as acusações no departamento de compliance da TV Globo. O jornal ouviu também o relato de cinco outras pessoas que afirmam ter testemunhado os fatos narrados pelas vítimas.
Apesar da disposição em relatar suas histórias, todas impunham condições em que seus nomes não fossem divulgados, nem os detalhes das histórias. No começo desse mês, elas decidiram que a advogada criminalista Mayra Cotta, que as assessora no caso, desse um depoimento sobre o assunto.
Em seu depoimento, a advogada destaca que “o processo foi encerrado e elas estavam sem saber muito bem como se organizar para que essa história tivesse um desfecho que reconhecesse tudo o que elas passaram e toda a gravidade do comportamento que o Marcius Melhem teve enquanto ele foi chefe. Obviamente tem sempre muitas dúvidas sobre o que pode ser falado, os riscos de uma judicialização, o que pode ser feito e os caminhos jurídicos que podem ser tomados. Eu fui chamada nesse contexto. Fui consultada como uma advogada que tem experiência e que trabalha com esse tema para ajudar na narrativa pública dos fatos, em como lidar com o caso para que ele não fosse simplesmente varrido para debaixo do tapete”, afirmou a advogada.
A criminalista também revela ao jornal sobre quais foram as acusações. “Houve um comportamento recorrente, de trancar mulheres em espaços e as tentar agarrar, contra a vontade delas. De insistir e ficar mandando mensagem inclusive de teor sexual para mulheres que ele decidia se iam ser escaladas ou não para trabalhar, se ia ter cena ou não para elas [nos programas de humor]. De prejudicar as carreiras de mulheres que o rejeitaram. De ficar obcecado, perseguindo mesmo. Foi um constrangimento sistemático e insistente, muito recorrente”, disse.
A advogada relata ainda que antes de trabalhar com assédio sexual, trabalhava com violência doméstica na Universidade de Brasília e percebeu pelas descrições dos casos [que envolvem Marcius Melhem], como um chefe assediador ao semelhante a um marido abusador.
“Ele isolava as atrizes, tinha o poder de não as deixar ir para outros lugares [na emissora], fazer outras coisas. E criava um ambiente de trabalho tóxico. As pessoas se sentiam presas, sem conseguir se livrar daquilo. Ele usava situações de trabalho para as tentar agarrar à força, inclusive usando violência”, acrescentou Mayra Cotta para o jornal.
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